A 28.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés, organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, chegou ao fim. A “Colheita Vintage” de 2026 encerrou em Vizela depois de mais de 1100 quilómetros entre Faro e o norte, com paragem em 18 oásis e um “road-book” de 67 páginas que guiou centenas de motociclistas portugueses e estrangeiros por alguns dos territórios mais bonitos e desconhecidos do país. Uma edição marcada pelo calor persistente, por percursos exigentes e por uma sucessão de surpresas que a organização foi guardando até ao último quilómetro.
A terceira e última etapa, entre as cidades termais de São Pedro do Sul e Vizela, somou 320 quilómetros pelos cenários mais exigentes do interior norte. A rota levou a caravana pelas terras de Aquilino Ribeiro, pelo coração do Douro Vinhateiro, pelas minas de ouro de Jales, em Vila Pouca de Aguiar, e pelas Terras de Basto. Foram perto de 11 horas e meia de viagem, com primeira paragem em Castro Daire, uma das referências da N2 para o mototurismo nacional.
Das Terras do Demo a Pendilhe, com uma Harley em aperto
Passou pela labiríntica aldeia de Pendilhe, onde Dominique Gaignet disse mal da sua vida para manobrar a gigantesca Harley-Davidson Electa Glide, comprida de dois metros e meio e com mais de meia tonelada sobre duas rodas.

O francês do Moto-Club Luçonnais (organizador do FIM Motocamp em 2025) reconheceu “a elevada qualidade e originalidade do evento, impecável em todos os aspetos, apesar de estar longe de ter um percurso ideal para esta moto”.
Um lamento que não roubou o sorriso a quem fez mais de 3600 quilómetros só para chegar a Faro, passeando com sete amigos pelo sul de Espanha.
Ficou triste o “monsieur” Gaignet porque, preocupado que estava com a condução do “camião”, não reparou na dezena de espigueiros que dão um toque único a Pendilhe, mas fez questão de passar com toda a serenidade numa Vila Nova de Paiva que ainda se espreguiçava.
Com calma passou também o desvio por Soutosa, terra natal de Aquilino Ribeiro, autor de Terras do Demo e Volfrâmio, antes de a homenagem ‘Quando os Lobos Uivam’, em Moimenta da Beira, reforçar a ligação do escritor às suas origens.
Levando muito a sério os avisos do “road-book” e de toda a organização quanto à exigência da terceira etapa deste Lés-a-Lés, andaram lestos os participantes que passaram em São João da Pesqueira bem dentro do horário previsto, havendo quem, com medo de atrasos, até se tenha antecipado.
A entrada no concelho, atravessando o Rio Távora na robusta ponte de arco único de Riodades, fez recordar outra relevância motociclística, com as marcas deixadas pelos fogos a sublinhar a importância da campanha Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés que, ano após ano, tenta mudar mentalidades e a constituição da floresta nacional, apelando ao uso das árvores autóctones.

Histórias de naufrágios e traições no Douro
Tão deliciosos quanto as paragens, indispensáveis para hidratar e alimentar os participantes, em tempo aproveitado também para ir colocando a conversa em dia e falar sobre as maravilhas acabadas de ver.
Assim foi também no Oásis montado em parceria pelos elementos dos moto clubes do Porto, um dos criadores do Lés-a-Lés no longínquo ano de 1999 que recriou importante episódio histórico, e de São João da Pesqueira, que, com o apoio da autarquia, proporcionou a tradicional bola de carne e dois porcos no espeto.
Havia que comer para manter as energias que era ainda longo o caminho até Vizela, continuando pelo coração do Douro Vinhateiro, entre estradas encantadas, com passagem pela barragem da Valeira. Construção de 1975, um pouco a jusante do famoso cachão, o desfiladeiro granítico que estrangulava de tal forma o Douro que, enfurecido se lançava de uma altura de vários metros.
Local que foi palco de lendário naufrágio recriado no Oásis anterior, com ajuda dos Bombeiros Voluntários que deram maior realismo com um bem-agradecido banho de mangueira a recordar águas tempestuosas. Como aquelas que, a 12 de maio de 1861, levaram ao naufrágio do luxuoso rabelo do segundo marido de Dona Antónia Adelaide Ferreira.
Diz a lenda que a “Ferreirinha” se salvou graças ao balão criado pelas longas saias, enquanto Joseph James Forrester, Barão pelo Rei D. Fernando II, se afundou devido aos sacos de moedas que transportava. Camilo Castelo Branco, porém, contou outra versão em O Vinho do Porto, atribuindo a morte do britânico ao impacto do mastro da embarcação e ao drama humano que se seguiu nas águas revoltas do Douro.
Curvas a subir e curvas a descer
Segundo a experiência motociclística, depois de cada descida vem uma subida e vice-versa. Se a isso juntarmos um festival de curvas é possível fazer uma pequena ideia da diversão na descida ao Douro, na subida até Linhares e Parambos, em nova descida através de Ribalonga, a aldeia dos construtores de socalcos, com direito a passagem pela Barragem do Tua e na magnífica ascensão a São Mamede de Ribatua, com desvio ao Miradouro do Ujo para apreciar o Reino Maravilhoso exaltado pelo grande Miguel Torga.
E mais uma estrada empinada até Alijó onde, claro está, houve novo Oásis, mostrando as doces laranjas do quente vale de S. Mamede de Ribatua como um dos vários produtos de excelência da região.
Que bem souberam a Matilde Jacinto, a mais jovem condutora do evento que, aos 15 anos, sofreu a bom sofrer para ultrapassar as longas e exigentes subidas durienses. “É que não bastava ter um moto de apenas 50 cc, como não estava habituada à Sherco SM que chegou poucos dias antes do Lés-a-Lés. Além de que nunca tinha feito tantos quilómetros nem conduzido durante tanto tempo”.
Ainda assim, a jovem de Estremoz estava radiante porque, “apesar da dureza, vive-se um ambiente espetacular, com visita a locais que não conhecia e descobrindo coisas que nem fazia ideia que existiam”.
Ao lado, os pais Andreia e Bruno assumiam a “culpa” de ter estimulado a filha a participar (bem como o sobrinho Tomás Cheira numa AJP 125) e depois de sete presenças, sempre em motos mais aptas às exigências de grandes viagens, optaram por viver uma aventura diferente.

A mãe Andreia trocou a BMW GS por uma Honda Monkey 125 e o pai alinhou numa Suzuki TU 250 com história familiar: foi a sua primeira moto, comprada com a ajuda da então namorada e agora esposa, e recuperada anos mais tarde.
Jales: ouro, minas e um “Trump” inesperado no Lés-a-Lés
E assim, com cilindradas e andamentos mais próximos, esta verdadeira aventura em família seguiu através de Favaios, capital do moscatel, apreciando os últimos vinhedos até Vilar de Maçada, e daí, atravessando as serras de Vilarelho e da Falperra, chegar ao planalto de Jales. Zona aurífera explorada desde o tempo dos romanos até 1992, Jales trouxe ao percurso uma das páginas mais singulares da história mineira portuguesa.
Mas o “grande escândalo” surgiu durante visita ao Centro de Interpretação Mineiro de Jales, ao descobrir que “Donald Trump” decidiu dar nova vida ao complexo anunciando a compra com o dinheiro ostentado, ali mesmo, por “J.D. Vance”. Um “good deal” de quem garante possuir todas as cartas para jogar onde e quando lhe apetecer, acompanhado da promessa de “Make Vila Pouca de Aguiar Great Again” que deixou os próprios “americanos” espantados.
Um grupo de 10 emigrantes lusitanos, literalmente de todos os cantos de Portugal, de Chaves a Lisboa, de Alenquer a Faro, que se conheceram em New Jersey e ficaram unidos pela paixão motociclística.
A ideia começou com Paulo “Montanellas” Sousa que descobriu o Lés-a-Lés em 2022 e regressou em 2024. Para a 28.ª edição desafiou mais amigos e todos alugaram motos para a aventura da Federação de Motociclismo de Portugal. Todos não, “que há quem tenha poder financeiro para mandar vir a Gold Wing desde os Estados Unidos apesar de sair bem mais em conta alugar uma moto”.
Espantados com o nível da organização, elogiaram o controverso “Trump” de Jales como um dos momentos altos deste Portugal de Lés-a-Lés, enaltecendo “a capacidade de brincar com temas bem atuais ao mesmo tempo que mostram a História de Portugal de uma forma espetacular”.

E depois de uma visita à réplica dos tuneis, seguiram para Vila Pouca de Aguiar descobrindo pelo caminho alguns pinheiros-do-Oregon e, juntamente com todos os outros participantes, encontraram também uma nova forma de chegar à cidade transmontana, trocando o bom asfalto da convencional pela N212 por uma abordagem diferente através de inclinados quelhos mesmo até ao centro.
Onde, fazendo jus à fama das suas qualidades, não podia faltar a conhecida Água das Pedras, extraída ali bem perto, no Parque das Pedras Salgadas.
A caravana chegou a Cabeceiras de Basto, depois de mais uma boa dose de curvas com passagem por Ribeira de Pena, subindo ao Alvão, descendo ao Tâmega, visitando Arco de Baúlhe.
Terras de Basto: invasões francesas, bifanas e corridas de burros
Tudo isto antes da paragem junto ao imponente Mosteiro de São Miguel de Refojos, em Cabeceiras de Basto.
Ali mesmo ao lado, num “asnódromo” onde são feitas corridas de burros e que daria uma bela pista oval para corridas de “speedway”, os Motogalos de Barcelos animavam as hostes recriando a Segunda Invasão Francesa de 1809, lideradas pelo Marechal Soult, e picavam as tarjetas, enquanto os Bombeiros Voluntários Cabeceirenses voltavam, tal como há dois anos, em Cavez, a proporcionar excelentes bifanas.
Recordou-se a passagem das tropas napoleónicas que, vindas de Chaves e em direção ao Porto, percorreram e saquearam vários pontos da região do Minho e de Trás-os-Montes, causando grande destruição no vale do Tâmega, nomeadamente da histórica Ponte de Basto, cuja estrutura medieval foi parcialmente destruída.
Falou-se também da lenda d’O Basto, associada ao monge guerreiro Hermígio Romarigues, que terá defendido o Mosteiro de São Miguel da investida dos Mouros com o célebre grito: “Até ali, por São Miguel, até ali basto eu!” A frase acabaria por dar nome à região e alimentar uma das suas mais conhecidas tradições.
De Fafe a Vizela: Mundial de Enduro, casamentos e festa final
Momento histórico que quase distraía os mais atrasados (ou seriam as bifanas?…) que estava na hora de debandar em direção a Vizela. Antes, porém, a passagem pelo Confurco, meca do Rali de Portugal, mesmo às portas de Fafe, com o local onde foi dada a partida para o 15.º Lés-a-Lé a servir agora de palco à cerimónia do pódio do primeiro dos dois dias da primeira jornada portuguesa que marca exatamente o meio do Campeonato Mundial de Enduro.

Com a Igreja Românica de Arões para trás e a subida à Penha cumprida, começaram a surgir, cada vez com mais frequência, as placas para Vizela. O palanque final estava perto.Porém nada no Portugal de Lés-a-Lés é tão linear como parece à primeira vista, isto é, ao olhar para o “road-book”, e para acabar em grande, nada como uma visita à Igreja de São Cristóvão, em Abação.
A surpresa deixou muitos embasbacados: detetores de metais, seguranças de óculos escuros e auriculares, e a exigência do convite entregue no Controlo 1, na Culatra. Afinal, tratava-se de uma festa de casamento em grande escala, entre Bodas de Ouro reais e quatro casamentos “fake”, com noivas em viaturas clássicas e convidados vestidos a rigor.
Era o Motoclube de Guimarães a ser ele próprio, transformando o último controlo numa das surpresas mais divertidas desta edição.
Foi em Vizela, perante milhares de habitantes, que a festa final juntou Centuriões Romanos, referências à Vizela Romana, personagens em andas, fogo de artifício, apoio técnico e o inevitável jantar rematado com bolinhol, uma das Sete Maravilhas Doces de Portugal.
O jantar, servido no Jardim Manuel Faria, fechou a edição de 2026 e abriu caminho ao próximo Lés-a-Lés, que em 2027 partirá de Vizela rumo ao Algarve. Que, sublinhe-se, terá enormes exigências de qualidade depois do sucesso de 2026, fortemente aplaudido por todos os envolvidos no 28.º Portugal de Lés-a-Lés. Uma edição lendária, para ficar na história do motociclismo nacional.
Fonte e fotos: Gabinete de imprensa do Lés-a-Lés
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