Durante décadas, comprar uma moto significava adquirir um produto praticamente “fechado”. As melhorias chegavam apenas quando surgia um novo modelo ou através de uma campanha técnica realizada pelo fabricante. Hoje, esse paradigma está a mudar rapidamente.
À semelhança do que aconteceu na indústria automóvel, os motociclos começam a entrar definitivamente na era das atualizações por software (OTA – Over The Air), permitindo corrigir problemas, melhorar o desempenho e até adicionar novas funcionalidades sem que o proprietário tenha de visitar um concessionário.
Se, há poucos anos, esta tecnologia parecia reservada aos automóveis elétricos, atualmente está a tornar-se uma das maiores tendências da indústria das duas rodas.
Muito mais do que corrigir erros
Quando se fala em atualizações de software, muitos motociclistas imaginam apenas pequenas correções eletrónicas.

Mas a realidade é bem diferente.
Nas motos mais recentes, uma atualização pode alterar profundamente o comportamento da máquina.
É possível:
- melhorar a resposta do acelerador eletrónico;
- otimizar o controlo de tração;
- alterar o funcionamento do ABS em curva;
- atualizar mapas de potência;
- melhorar a gestão da suspensão eletrónica;
- introduzir novas funcionalidades no painel TFT;
- aumentar a compatibilidade com smartphones;
- corrigir consumos ou emissões.
Em muitos casos, a moto fica efetivamente melhor do que no dia em que saiu do concessionário.
A conectividade tornou-se prioridade
Esta evolução está intimamente ligada ao crescimento dos sistemas de conectividade.

Hoje encontramos cada vez mais modelos equipados com:
- ligação permanente por Bluetooth;
- módulos Wi-Fi;
- eSIM ou ligação móvel;
- aplicações dedicadas para smartphone;
- navegação integrada;
- diagnóstico remoto.
O painel TFT deixou de ser apenas um velocímetro digital.
Passou a funcionar como um verdadeiro centro de comando.
BMW, Ducati, KTM, Yamaha e Honda aceleram a digitalização
Os principais fabricantes já estão a investir fortemente nesta área.
A BMW Motorrad foi uma das primeiras marcas a apostar numa arquitetura eletrónica preparada para receber atualizações remotas, sobretudo nos modelos equipados com o sistema Connectivity e nos mais recentes modelos da família GS.
A Ducati utiliza a aplicação Ducati Link para disponibilizar novas configurações, personalização dos Riding Modes e gestão de vários parâmetros eletrónicos, preparando igualmente uma plataforma cada vez mais orientada para atualizações remotas.
Também a KTM está a desenvolver uma infraestrutura digital que permitirá gerir novos pacotes eletrónicos, mapas de motor e funcionalidades através da conectividade instalada nas gamas mais recentes.
A Yamaha, com o sistema Y-Connect, e a Honda, através da plataforma Honda RoadSync e das novas arquiteturas eletrónicas, seguem igualmente este caminho.
O objetivo é comum: reduzir deslocações às oficinas e manter as motos permanentemente atualizadas.

A vantagem de quem nasceu na era digital
Ao contrário dos fabricantes centenários, muitas marcas chinesas como CFMOTO, Zontes, QJMotor, Voge e Kove, desenvolveram as suas plataformas eletrónicas praticamente do zero.
Isso permite-lhes integrar mais facilmente novas funcionalidades, sistemas conectados e futuras atualizações OTA, reduzindo custos de desenvolvimento e acelerando a introdução de novas tecnologias no mercado.
O software passa a valer tanto como o motor
Durante décadas, a evolução técnica de uma moto media-se sobretudo pela potência, suspensão ou travões.
Hoje, o software começa a assumir exatamente o mesmo peso.
O comportamento do acelerador ride-by-wire, o funcionamento do quickshifter, o controlo da travagem em curva ou a atuação do controlo de tração dependem cada vez mais de linhas de código.
Na prática, duas motos mecanicamente iguais podem oferecer sensações completamente diferentes apenas através de uma atualização de software.
Novas funcionalidades poderão ser compradas depois
Outra tendência já observada na indústria automóvel começa igualmente a aproximar-se do motociclismo.
Alguns fabricantes estudam disponibilizar funções opcionais que poderão ser ativadas posteriormente.
Imagine comprar uma moto e, meses depois, adquirir através de uma aplicação:
- um modo de condução adicional;
- suspensão eletrónica com novos programas;
- navegação premium;
- controlo de arranque (Launch Control);
- modos específicos para pista;
- aquecimento de punhos ou banco (quando o hardware já existe).
Em vez de trocar de moto, poderá simplesmente desbloquear novas funcionalidades.
Menos campanhas técnicas, mais atualizações automáticas
Outro benefício evidente será a redução das chamadas campanhas técnicas.
Sempre que um fabricante identificar uma melhoria eletrónica, poderá simplesmente enviar uma atualização para todas as motos compatíveis.
O proprietário recebe uma notificação, aceita a instalação e poucos minutos depois a moto está atualizada.
Sem deslocações.
Sem tempos de espera.
Sem custos adicionais.
Mas nem tudo são vantagens
Esta transformação também levanta algumas questões.
A crescente dependência do software obriga os fabricantes a investir fortemente em cibersegurança, protegendo as motos contra acessos indevidos.
Outro desafio prende-se com a longevidade do suporte.
Tal como acontece nos smartphones, será importante perceber durante quantos anos cada fabricante continuará a disponibilizar atualizações para modelos mais antigos.
Também surgem dúvidas relativamente a futuras funcionalidades pagas por subscrição, um modelo que alguns construtores automóveis já começaram a experimentar e que poderá, mais cedo ou mais tarde, chegar ao universo das motos.
Claro que a própria durabilidade dos suportes (hardware) e a sua capacidade de funcionar ao fim de muitos anos e quilómetros de rodagem da própria moto onde estão montados.
O futuro já começou
A eletrificação, a conectividade e a inteligência artificial estão a transformar profundamente o motociclismo.
As atualizações OTA representam apenas uma das faces desta revolução silenciosa, mas poderão alterar para sempre a relação entre motociclista e fabricante.
Num futuro próximo, comprar uma moto poderá deixar de significar adquirir um produto acabado.
Será antes o início de um processo de evolução contínua, onde novas funcionalidades chegam regularmente através da Internet, tal como acontece hoje com um smartphone.
A grande questão já não é se as motos se vão tornar computadores sobre duas rodas.
A questão é quando essa transformação será totalmente aceite pelos motociclistas. Afinal, dentro de poucos anos, atualizar a moto poderá ser tão normal como atualizar o telemóvel.
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