Há ambientes de corrida que se sentem logo ao entrar na box, e o da ROKiT BMW Motorrad WorldSBK é um deles. Pela terceira vez este ano voltei a acompanhar a equipa num fim de semana de competição — e a sensação é sempre a mesma: há ali algo especial.
Da box ao hospitality, a harmonia é evidente. Técnicos, engenheiros e mecânicos de 11 países diferentes trabalham lado a lado com uma naturalidade que só se encontra nas equipas verdadeiramente unidas.
Entre eles está o português Vítor Neves, mecânico de Toprak Razgatlıoğlu, que acrescenta ao grupo uma energia muito própria.
É neste contexto de equilíbrio e motivação que Miguel Oliveira será recebido na próxima temporada. Todos acreditam que o piloto português trará ainda mais força ao projeto e ajudará a prolongar o momento de evolução que a BMW vive.
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Mesmo num fim de semana intenso, com o campeonato ainda por decidir, houve espaço para uma conversa descontraída com Chris Gonschor, o homem que gere toda a vertente técnica da BMW Motorrad Motorsport.
No final de domingo, entre boxes em silêncio e o eco das últimas motos a regressar ao camião, falou-nos sobre o presente e o futuro da marca alemã no Mundial de Superbike.
A conversa começou por resumir um pouco as emoções do fim de semana que começaram da melhor forma com a “pole position” e tempo recorde numa volta ao Circuito do Estoril, duas vitórias, na corrida 1 de sábado e na Superpole Race de domingo, e um segundo lugar na corrida 2 atrás do principal adversário do campeonato.
Assim, Nicolò Bulega (Aruba.it Ducati), 39 pontos atrás de Toprak Razgatlıoğlu, leva a luta pelo título de campeão para a última corrida em Jerez de la Frontera, “A esperança é igual para todos, mas no fim, isto é um campeonato — e é bom para o mesmo que a decisão vá até ao final”, remata Gonschor.

Correm rumores no paddock de que alguns elementos-chave da boxe da equipa irão transitar para outras estruturas. Chris Gonschor comentou esta inevitável rotatividade que existe dentro de uma equipa de competição.
“Em todas as temporadas há pessoas que entram e outras que saem — faz parte do trabalho, faz parte do jogo”, explicou o diretor técnico da BMW Motorrad Motorsport. “É assim em todos os desportos. No futebol é o mesmo. Tentamos sempre manter as equipas o mais estáveis possível, mas este é um campeonato aberto… e um mundo aberto”.
Segundo Gonschor, o sucesso da equipa em 2024 tornou-a naturalmente mais atrativa para outras marcas e estruturas. “Depois de termos sido campeões do mundo no ano passado, é normal que despertemos interesse — de outras equipas, de outros campeonatos, de outras marcas. Por isso, é normal que os nossos pilotos sejam contactados, tal como os técnicos, os mecânicos ou os chefes de equipa”.
Ainda assim, o dirigente reconhece que a estabilidade total é impossível. “Tentamos manter a equipa o mais constante possível, mas nunca será a 100%. Não o foi no passado e não o será no futuro. Quando alguém tem a oportunidade de procurar um novo desafio — como é o caso do nosso piloto — é algo que compreendemos e respeitamos. Faz parte do trabalho, e apreciamos o contributo de todos os que passaram por nós”.
“Com Miguel e Danilo, conseguimos dois pilotos vencedores. Ambos provaram que se adaptam e que sabem ganhar”
Passando para o tema que está decidido e o mais visível, quisemos saber um pouco melhor a visão do técnico alemão sobre os dois novos pilotos que ocuparão as motos no ano que vem, Miguel Oliveira e Danilo Petrucci.
“Antes de mais, é evidente que a contratação do Danilo e, um pouco mais tarde, do Miguel, nos deixou muito orgulhosos. Conseguimos assegurar dois pilotos com vitórias em corridas. Ambos provaram no passado, em diferentes provas e campeonatos, que são vencedores e altamente adaptáveis”.
O diretor técnico sublinhou que essa versatilidade foi precisamente o principal objetivo da BMW ao reforçar a sua formação: “O Danilo venceu corridas no Mundial Superbike, venceu corridas no MotoGP e até no Dakar — o que mostra claramente a sua capacidade de adaptação. Provou o seu valor em quatro campeonatos diferentes”.
Sobre Miguel Oliveira, Gonschor destacou o talento e o potencial do piloto português: “O Miguel é um piloto com cinco vitórias no MotoGP — não é preciso dizer muito mais. O potencial está lá. É também um pouco mais jovem. Juntos, formam um equilíbrio perfeito: dois pilotos talentosos, simpáticos e positivos, que fazem sorrir as pessoas à sua volta”.
A harmonia dentro da garagem é, para Gonschor, um fator determinante no rendimento global da equipa:“Isto é muito importante para nós. Aprendemos com o Toprak e com o Michael que a relação entre os dois pilotos é fundamental para tirar o melhor de toda a equipa. Se dentro da própria garagem houver tensão, o trabalho torna-se mais complicado e menos eficiente. Quando ambos os lados colaboram e há um bom ambiente, consegue-se muito mais”.
O dirigente reforçou ainda a sua visão do motociclismo como um desporto coletivo:“Para mim, isto é um desporto de equipa, como o futebol. Mesmo que os pilotos sejam as estrelas e corram sozinhos em pista, por detrás deles há uma grande estrutura que tem de funcionar em conjunto. Todos têm de trabalhar e apoiar-se mutuamente. É essa a minha paixão: o espírito de equipa”.
Confiante, Gonschor concluiu com uma nota de otimismo sobre o desempenho dos dois novos pilotos:“Se lhes dermos o melhor apoio possível — e sei que o faremos, como já fizemos no passado —, estou certo de que ambos estarão no pódio muito em breve”.

Questionado sobre a forma como a BMW Motorrad irá gerir os dois novos pilotos dentro da equipa, Chris Gonschor foi claro ao afirmar que o tratamento será igual para ambos:“Neste momento, o tratamento é — e sempre foi — igual dentro da nossa garagem. Claro que, pelos resultados, é inevitável falar num ‘piloto número um’, até porque um deles tem mesmo o número um na moto, e num ‘piloto número dois’. Mas, em termos de tratamento, material e apoio técnico, tudo é exatamente igual para ambos, e assim continuará a ser no futuro”.
O diretor técnico reforçou ainda a confiança total na dupla de pilotos escolhida para esta nova fase do projeto BMW Motorrad Motorsport:“Com estes dois pilotos, não faz sentido falar em número um ou número dois. Um deles já conhece bem o campeonato, os pneus e sabe o que é vencer corridas e subir ao pódio. O outro vem diretamente do MotoGP — o maior palco do motociclismo —, onde demonstrou ter um enorme potencial em cima de uma moto”.
Gonschor concluiu com entusiasmo, sublinhando as expectativas para 2025:“Para mim, são simplesmente dois pilotos fantásticos na nossa moto. Estou muito expectante para os ver juntos no pódio”.
“Na BMW nunca falamos em piloto número um ou número dois. O tratamento e o material são iguais para ambos”
Questionado sobre se a chegada de dois pilotos com experiências recentes diferentes exigiria abordagens distintas por parte da equipa técnica, Chris Gonschor preferiu não generalizar:“Acho que essa pergunta não tem uma resposta única. Depende muito de cada pessoa. Todos gostam de ser tratados de forma ligeiramente diferente — cada um tem as suas qualidades, as suas necessidades e as suas preferências específicas. Por isso, não posso responder de forma genérica”.
Ainda assim, o responsável alemão reconheceu que a experiência prévia de cada piloto pode influenciar ligeiramente a fase inicial de adaptação:“Para nós, não faz diferença se um piloto vem de um paddock ou de outro. Mas, sendo o próximo ano o último com pneus Pirelli, é natural que, nesse aspeto, o Petrucci tenha uma adaptação um pouco mais fácil, porque já conhece bem os pneus”.
Gonschor acrescentou, contudo, que Miguel Oliveira é conhecido pela sua capacidade de adaptação:“O Miguel vem de outro campeonato e com pneus diferentes, mas é um piloto muito adaptável. Vai ter o primeiro contacto com a nossa moto no final de novembro, esperamos que em Jerez e com boas condições de tempo. A partir daí, veremos como tudo evolui”.
Para já, garante que a abordagem inicial será idêntica para ambos:“Ambos os pilotos vão integrar-se na equipa com exatamente o mesmo tratamento. Depois do primeiro teste, teremos uma ideia mais clara sobre os pontos específicos em que devemos concentrar o nosso trabalho”.

Chris Gonschor abordou também um dos seus principais objetivos técnicos dentro da ROKiT BMW Motorrad WorldSBK: a necessidade de harmonizar as motos da equipa, reduzindo variações desnecessárias entre elas.
“No passado, especialmente em alturas em que tínhamos mais de duas BMW na grelha, era normal que cada piloto quisesse adaptar a moto ao seu estilo de condução para tirar o máximo rendimento. Mas, ao mesmo tempo, é fundamental encontrar um equilíbrio — uma harmonização entre as motos. Quando cada uma segue uma direção diferente, torna-se um caos. Sim, há muitos dados, mas isso também cria muito mais trabalho”.
O diretor técnico explicou que essa dispersão de caminhos técnicos pode prejudicar o foco da equipa:“Quando todos seguem em direções diferentes, é impossível manter a concentração. Um dos meus grandes objetivos é precisamente garantir que todos têm o mesmo foco — e isso significa também que as motos devem estar o mais próximas possível entre si”.
Gonschor reconheceu, no entanto, que há sempre limites naturais a essa uniformização: “Claro que pode haver situações em que um piloto encontra algo que não é 100% perfeito, mas que lhe permite ganhar em certas circunstâncias. No fim, o único aspeto que não pode ser totalmente harmonizado é a ergonomia — o piloto tem de encaixar bem na moto e sentir-se confortável, tendo sempre em atenção que quando o centro de gravidade numa moto, tudo se altera”.
“Quando há um bom ambiente dentro da box, o rendimento da equipa cresce naturalmente. O motociclismo é um desporto de equipa”
Chris Gonschor revelou ainda alguns detalhes sobre as conversas que antecederam o acordo com Miguel Oliveira, destacando a importância do diálogo técnico desde o início das negociações: “Tivemos várias chamadas e algumas discussões técnicas — algo perfeitamente normal durante o período de negociação. É assim que deve ser”, explicou. “A gestão e a co-gestão têm de falar entre si, mas também é importante que haja comunicação direta entre os técnicos e o piloto, para que tudo se alinhe”.
O responsável da BMW Motorrad sublinhou que essas conversas iniciais foram fundamentais para criar uma base sólida de entendimento mútuo: “O piloto precisa de ter uma boa perceção do que podemos oferecer — e nós também precisamos de compreender claramente o que ele procura. Nesse sentido, tivemos uma boa conversa e encontrámos rapidamente um bom nível de comunicação técnica. Sei o que ele procura e ele sabe o que nós podemos entregar. Agora, estamos apenas ansiosos por o ver na nossa moto”.
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