A forma de obter uma carta de moto mudou profundamente na Irlanda do Norte. Entrou em vigor a 1 de outubro de 2026 o novo sistema de Graduated Driver Licensing (GDL), ou licenciamento progressivo, uma reforma que abrange automóveis e motociclos e que o Department for Infrastructure descreve como a alteração mais significativa ao sistema de formação e exame em quase 70 anos.
Para os motociclistas, a filosofia é particularmente interessante. Em vez de concentrar praticamente todo o processo na capacidade para superar um exame teórico e outro prático, passa a existir um percurso de aprendizagem estruturado. E esse percurso terá de ficar documentado.
Dez módulos obrigatórios antes do exame
Quem pretenda obter as categorias A1, A2 ou A terá agora de completar um Programme of Training composto por 10 módulos obrigatórios. Existe ainda um 11.º módulo opcional, dedicado à condução em autoestrada.
O programa pretende abranger não apenas técnica de condução, mas também conhecimentos, comportamento e competências necessárias para que o candidato consiga circular de forma segura depois de deixar de estar acompanhado por um instrutor.

É precisamente aqui que reside uma das diferenças conceptuais mais interessantes do novo sistema. O objetivo oficial não é formar alguém simplesmente “tecnicamente competente”, mas um motociclista seguro quando passar a circular sozinho.
Tudo fica registado num logbook
Cada etapa concluída é registada num logbook. Os módulos obrigatórios têm de ser completados e validados e é necessária uma aprovação final antes de o candidato poder realizar o exame prático. O sistema está disponível através de aplicação móvel e navegador.
Criar uma conta GDL tem um custo de 17 libras, valor adicional ao processo normal de obtenção da carta. Na prática, isto significa que deixa de ser possível chegar ao exame tendo apenas cumprido os requisitos mínimos administrativos e esperando demonstrar naquele momento que se possui técnica suficiente. Passa a existir um historial formal de formação.
Mas os motociclistas não têm de esperar seis meses
Este é um detalhe importante porque as regras para automóveis e motos não são exatamente iguais. Para os automóveis, o novo sistema introduz um período mínimo de aprendizagem de seis meses entre a obtenção da licença provisória e a possibilidade de realizar o exame prático. Esse período mínimo não se aplica aos motociclistas.
Um candidato à carta de moto terá, contudo, de completar todos os módulos obrigatórios e obter a respetiva validação antes de chegar ao exame. Ou seja, a progressão depende da formação efetivamente realizada e não de simplesmente esperar seis meses.

E pode existir formação em autoestrada
Há outra novidade interessante. O Módulo 11, opcional, permite introduzir formação específica em autoestrada. Um motociclista ainda em aprendizagem só poderá realizar esse treino acompanhado por um Approved Motorcycle Instructor (AMI), mantendo comunicação por rádio.
Depois de passar no exame deixa naturalmente de necessitar dessa supervisão, embora possa optar por realizar posteriormente o módulo com acompanhamento.
É uma abordagem relevante porque tenta reduzir uma das situações relativamente comuns nos sistemas tradicionais de carta: o motociclista pode obter habilitação para circular numa autoestrada sem nunca ter recebido formação nesse ambiente.
Dois anos identificado como motociclista recém-encartado
A mudança não termina quando o candidato passa no exame. O período durante o qual o novo condutor é considerado recém-encartado aumenta de 12 para 24 meses.
Durante esse período terá de utilizar uma placa “R”, de restricted driver. Nos primeiros seis meses será utilizado um R azul sobre fundo branco. Nos restantes 18 meses, a identificação passa a ser R branco sobre fundo azul.
A intenção é tornar imediatamente reconhecível para outros utilizadores da estrada, e para as autoridades, que aquele condutor ainda se encontra nos primeiros anos de experiência.
Acaba a limitação dos 45 mph
Curiosamente, o novo sistema é mais exigente na formação, mas elimina uma das antigas restrições. Até agora, os recém-encartados identificados pela placa R estavam limitados a 45 mph, aproximadamente 72 km/h.
Essa limitação desaparece no novo regime. O GDL não estabelece uma velocidade máxima específica para os recém-encartados abrangidos pelo novo sistema. A lógica é interessante. Em vez de tentar reduzir o risco obrigando todos os novos condutores a circular artificialmente mais devagar, procura-se reduzir esse risco através de melhor formação e de um período prolongado de identificação como condutor inexperiente.
As restrições noturnas não se aplicam às motos
Existe aqui outra distinção importante. A reforma tem sido notícia sobretudo por introduzir restrições noturnas para jovens condutores. Durante os primeiros seis meses após o exame, condutores de automóveis até aos 24 anos ficam limitados no transporte de passageiros entre as 23h00 e as 06h00. Esta regra não se aplica aos motociclistas.

É importante fazer esta distinção porque o GDL é um programa comum a automóveis e motos, mas várias das medidas mais divulgadas destinam-se exclusivamente à categoria B. Para as motos, o elemento central da reforma é claramente a formação estruturada anterior ao exame.
Porque está a Irlanda do Norte a fazer isto?
A resposta está na sinistralidade. O Department for Infrastructure considera que os condutores jovens e inexperientes estão desproporcionalmente representados nos acidentes graves e fatais.
Em 2024, foram registadas 164 vítimas mortais ou feridos graves em acidentes nos quais a responsabilidade foi atribuída a um condutor automóvel entre os 17 e os 23 anos. Esta faixa etária representava apenas 8% das cartas de condução, mas estava associada a 24% dos acidentes fatais ou graves.
No meio rural, o problema assume ainda maior dimensão: 71% das pessoas mortas ou gravemente feridas em acidentes envolvendo condutores entre 17 e 23 anos estavam em estradas rurais. São dados relativos sobretudo aos jovens automobilistas e, portanto, não devem ser utilizados como medida direta da sinistralidade dos motociclistas. Mas explicam a filosofia que levou à reforma global do sistema de formação.
Ensinar a conduzir ou ensinar a passar no exame?
É provavelmente esta a questão mais interessante para o resto da Europa. Praticamente todos os sistemas de obtenção de carta enfrentam o mesmo problema. O candidato aprende uma série de competências destinadas a demonstrar que consegue controlar o veículo e cumprir o código durante um exame relativamente curto.
Depois recebe a carta. E começa a verdadeira aprendizagem. A Irlanda do Norte tenta alterar esta sequência. O programa pretende introduzir anteriormente temas relacionados com atitude, comportamento, perceção do risco e tomada de decisão, juntamente com as competências práticas.
Não significa que dez módulos transformem automaticamente um motociclista principiante num motociclista experiente. Experiência continua a exigir quilómetros. Mas significa que o sistema deixa de assumir que a simples aprovação num exame é suficiente para completar todo o processo de formação.
E poderá este modelo chegar a outros países?
A Irlanda do Norte é a primeira região do Reino Unido a implementar este modelo, mas o conceito de carta progressiva está longe de ser novo.
O próprio Department for Infrastructure aponta para experiências em países como Austrália, Canadá, Noruega, Suécia, Finlândia e partes dos Estados Unidos, onde sistemas progressivos têm sido utilizados como instrumento de redução do risco entre condutores inexperientes.
No Reino Unido, a discussão já está aberta. Uma sondagem realizada em 2026 junto de 1.501 automobilistas mostrou que 57% apoiavam a existência de módulos obrigatórios de formação e 53% concordavam com a extensão da utilização da placa R para dois anos. Isso não significa que o sistema norte-irlandês vá ser automaticamente replicado. Mas transforma a região num interessante laboratório europeu.
E Portugal?
Em Portugal, o acesso às diferentes categorias de motociclos já segue uma lógica progressiva através das categorias AM, A1, A2 e A e das respetivas regras de idade e progressão.
O conceito norte-irlandês introduz, porém, outra dimensão. Não se trata apenas de limitar a potência ou cilindrada disponível nos primeiros anos. Trata-se de estruturar a própria aprendizagem em etapas obrigatórias e documentadas. Para Portugal, a pergunta interessante não será necessariamente se devemos copiar exatamente o sistema da Irlanda do Norte.
Será outra: deverá a formação de um novo motociclista terminar quando ele demonstra que consegue passar no exame, ou quando demonstra que está preparado para enfrentar sozinho situações reais de trânsito? A experiência norte-irlandesa poderá ajudar a encontrar uma resposta.
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