Durante muitos anos, os salões internacionais de Milão e Colónia eram praticamente incontornáveis para descobrir aquilo que a indústria mundial das motos preparava para a temporada seguinte. A China era importante, naturalmente, mas sobretudo enquanto gigantesca base industrial.
Hoje a realidade é diferente. A indústria chinesa já não se limita a fabricar milhões de motociclos, scooters, motores e componentes para consumo interno ou para outras marcas. Está a desenvolver produtos próprios cada vez mais sofisticados, a conquistar mercados internacionais e a entrar diretamente em segmentos onde, até há poucos anos, japoneses e europeus pareciam praticamente intocáveis.
É neste contexto que ganha particular importância a CIMAMotor 2026 — China International Motorcycle Trade Exhibition, que decorrerá entre 19 e 22 de setembro, em Chongqing. E a próxima edição promete ser a maior de sempre.
Mais de 1.000 expositores numa área de 170.000 m²
Os números avançados pela organização dão uma boa ideia da dimensão atingida pelo evento. A CIMAMotor 2026 deverá reunir mais de 1.000 expositores, representando a cadeia industrial das duas rodas e setores relacionados.

Estarão presentes mais de 100 marcas de motociclos e veículos elétricos, enquanto o número de veículos em exposição deverá superar as 3.000 unidades. Tudo isto distribuído por aproximadamente 170.000 metros quadrados de área de exposição.
Já não estamos, portanto, perante uma feira regional dedicada essencialmente ao gigantesco mercado doméstico chinês. A CIMAMotor está a ganhar dimensão para se afirmar como uma das grandes montras internacionais da indústria das duas rodas.
Chongqing não foi escolhida por acaso
Também a localização possui enorme significado industrial. Chongqing é um dos grandes centros históricos da indústria motociclista chinesa.
A região desenvolveu durante décadas uma enorme concentração de fabricantes, fornecedores de componentes, motores, engenharia e empresas especializadas na produção de duas rodas. Alguns dos grupos chineses que hoje encontramos nos concessionários europeus têm ligações profundas à região.
Por isso, realizar em Chongqing uma exposição desta dimensão significa colocar praticamente toda a cadeia industrial no seu próprio território. Fabricantes, fornecedores, distribuidores e potenciais parceiros internacionais encontram-se a poucos quilómetros de algumas das maiores estruturas produtivas do setor.

A China das motos baratas está a desaparecer
Talvez esta seja, no entanto, a transformação mais importante para o motociclista europeu. Durante muito tempo, “moto chinesa” significava quase automaticamente pequena cilindrada, preço reduzido e tecnologia relativamente simples.
Essa associação está rapidamente a tornar-se obsoleta. Basta olhar para aquilo que está a acontecer nos concessionários europeus.
Fabricantes chineses já oferecem bicilíndricas e motores de quatro cilindros, motos Adventure de média e alta cilindrada, naked sofisticadas, desportivas, scooters premium e níveis de equipamento que há poucos anos estavam reservados a segmentos muito superiores.
ABS em curva, IMU, controlo de tração, suspensões de fabricantes reconhecidos, travões Brembo, grandes painéis TFT, conectividade, radar e sistemas eletrónicos avançados começam a aparecer com crescente frequência.
Mas existe uma mudança ainda mais importante: as marcas chinesas começam a deixar de competir exclusivamente através do preço.

CFMOTO mostrou que era possível
A CFMOTO é provavelmente o exemplo internacional mais evidente dessa transformação. O fabricante desenvolveu uma presença crescente na Europa e expandiu a gama para segmentos onde enfrenta diretamente marcas japonesas e europeias.
A relação industrial com a KTM permitiu também acelerar aquisição de conhecimento e desenvolvimento de plataformas de maior cilindrada. Mas a CFMOTO já não está sozinha.
A QJMotor está a expandir rapidamente o catálogo internacional, entrando em categorias que vão das pequenas cilindradas às grandes Adventure e cruisers. A Voge, pertencente ao grupo Loncin, ganhou igualmente presença em vários mercados europeus.

E nomes como Zontes, Kove, Cyclone, Benda ou a mais recente ZXMOTO mostram que existe uma nova geração de empresas chinesas dispostas a competir não apenas por volume, mas também por tecnologia e imagem.
É precisamente por isso que aquilo que for apresentado em Chongqing merece agora atenção na Europa.
O que aparece na China pode chegar rapidamente à Europa
Nem todos os modelos apresentados na CIMAMotor chegarão naturalmente ao nosso mercado. Muitos foram desenvolvidos especificamente para as necessidades do enorme mercado asiático e nunca serão homologados na União Europeia.
Mas a distância temporal entre uma novidade chinesa e a respetiva chegada aos concessionários europeus está a diminuir. Os fabricantes possuem estruturas de distribuição internacional mais sofisticadas e, em vários casos, desenvolvem plataformas desde o início tendo em conta requisitos europeus.
Isso significa que uma nova Adventure, naked ou scooter apresentada em Chongqing poderá transformar-se poucos meses depois numa novidade para o EICMA e, posteriormente, chegar a Portugal.
Para a imprensa especializada europeia, ignorar os salões chineses começa portanto a significar descobrir algumas novidades demasiado tarde.
Mais do que motos
A dimensão dos mais de 1.000 expositores mostra igualmente que a CIMAMotor não é apenas uma montra de modelos acabados. A exposição cobre uma parte significativa do ecossistema industrial: componentes, acessórios, equipamentos, tecnologia, eletrónica, mobilidade elétrica e fornecedores especializados.
E esta parte é particularmente importante. Mesmo quando o nome de um fabricante chinês não aparece no depósito de uma moto vendida na Europa, existe uma probabilidade crescente de componentes ou tecnologia chinesa fazerem parte dela.
Baterias, displays, iluminação, sistemas de conectividade, componentes eletrónicos, motores elétricos e inúmeras peças são atualmente produzidos por uma cadeia de fornecedores chineses profundamente integrada na indústria mundial.
O peso da China no motociclismo é, portanto, consideravelmente superior à quota de mercado das marcas chinesas.

A eletrificação terá naturalmente um papel central
Há ainda outro setor onde a dimensão industrial chinesa é impossível de ignorar: a mobilidade elétrica. A China possui um gigantesco ecossistema de scooters, ciclomotores e motociclos elétricos e uma cadeia de fornecimento de baterias praticamente impossível de replicar rapidamente noutras regiões.
Por isso, entre os cerca de 3.000 veículos anunciados para a CIMAMotor 2026, as propostas elétricas serão uma área particularmente interessante para acompanhar. Não apenas para descobrir novas scooters urbanas, mas também para perceber que tecnologias de bateria, carregamento, motores e conectividade poderão posteriormente chegar a outros mercados.
A eletrificação das duas rodas está a evoluir de forma muito diferente da indústria automóvel. Na Europa continua relativamente limitada. Na Ásia já movimenta milhões de unidades e a China está no centro dessa transformação.
Europa começa a olhar para a China de outra forma
Existe também uma mudança de perceção. Durante anos, fabricantes chineses tiveram de convencer o consumidor europeu de que conseguiam oferecer qualidade suficiente para justificar a compra.
Agora algumas começam a enfrentar um desafio diferente: convencer o consumidor a escolhê-las em vez de uma marca japonesa ou europeia mesmo quando o preço já não é o único argumento.
É um salto enorme. E obriga a investir em design, engenharia, competição, comunicação, redes de concessionários, disponibilidade de peças e assistência pós-venda. Os próximos anos mostrarão quais conseguirão completar essa transformação.
Nem todas sobreviverão à enorme competição existente dentro da própria indústria chinesa. Mas aquelas que conseguirem poderão alterar profundamente o mapa mundial do motociclismo.
EICMA continua a ser fundamental mas Chongqing já não pode ser ignorada
O EICMA continuará a possuir uma importância enorme para o mercado europeu. Milão é o palco onde fabricantes de praticamente todo o mundo apresentam as novidades destinadas ao nosso continente. Mas a CIMAMotor começa a desempenhar outro papel.
Pode mostrar-nos mais cedo aquilo que algumas das fabricantes mais agressivas do mundo estão a desenvolver. E isso torna a edição de 2026 especialmente interessante, com mais de 1.000 expositores, mais de 100 marcas, cerca de 3.000 veículos, 170.000 metros quadrados.
São números impressionantes, mas quando as portas abrirem em Chongqing no próximo dia 19 de setembro, aquilo que veremos já não será simplesmente o futuro das motos chinesas. Uma parte poderá muito bem ser o futuro das motos que vamos comprar na Europa.
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