A BSA é uma marca histórica e a Gold Star um ícone do seu tempo. O facto de a BSA ter um novo importador para Portugal é uma boa oportunidade para recuperarmos um comparativo que realizámos em 2024 com a BSA Gold Star e a Royal Enfield Shotgun, duas ‘revivalistas’, cada uma à sua maneira.
Este artigo foi publicado originalmente na Motojornal n.º 1572/julho de 2024, com texto de Hugo Ramos, com a colaboração de Vítor Martins e Francisco Galrão e fotos de Pedro Lopes.
Saudosismo britânico
Duas marcas históricas em análise neste comparativo, ambas nasceram em Inglaterra no princípio do século XX, mas hoje em dia são fabricadas na Índia, por gigantes industriais de capitais indianos. Duas motos básicas, mas com muito estilo que podem perfeitamente vir a fazer parte das garagens de todos os que gostam da estética clássica!
Os ingleses ocuparam e governaram a Índia durante 89 anos, de 1858 a 1947, ao mesmo tempo que dominavam a indústria motociclística mundial. As motos britânicas lideraram em número de unidades produzidas e vendidas entre os anos 20 e 70 do século passado, com muitas marcas a serem protagonistas de mercado. Duas delas foram a Royal Enfield (RE), que começou a sua produção em 1901, e a BSA que se iniciou na produção de motos em 1910.
História recheada
Ambas têm marcos históricos interessantes, como a RE com a Bullet, o modelo com a maior longevidade em produção contínua, sem alterações significativas desde 1948, ou a BSA ter sido o maior fabricante do mundo nas décadas de 50 e 60, no conjunto de todas as suas marcas na altura, que incluíam entre outras a Triumph e a Ariel.
Sem dúvida dois nomes grandes do motociclismo mundial, mas que à data de hoje estão em situações muito diferentes do que estavam no século passado. A RE inglesa acabou por falir em 1971, mas a produção das Bullet tinha começado na Índia em 1955, através da criação de uma subsidiária para fazer motos para a polícia local e esta manteve-se em produção todos estes anos, tendo feito uma fusão nos anos ‘90 com o Grupo industrial Eicher, que mantém a propriedade da marca e tem investido fortemente na inovação e internacionalização da RE. A BSA está de regresso enquanto marca, depois da falência em Inglaterra em 1978; o grupo automóvel Mahindra pela sua subsidiária Classic Legends, comprou a marca BSA em 2016, mas só depois da pandemia em 2022 é que o primeiro modelo foi finalmente apresentado, a Gold Star que temos neste comparativo.
Revivalismo
A tendência já leva uns anos, a viragem a oriente de marcas históricas europeias continua e tem sido uma das estratégias usadas por marcas indianas e chinesas para chegarem mais rapidamente e de forma mais “glamorosa” às escolhas dos clientes por todo o mundo. Têm-no feito com motos e automóveis, com sucesso assinalável em algumas marcas mais premium, tendo também feito parcerias com as marcas que ainda são europeias, japonesas e americanas para a produção de determinados modelos de cilindradas mais baixas.
Estas parcerias têm dado avultados lucros às marcas europeias, que conseguem produzir mais barato e vender a preços premium na mesma por todo o mundo, mas também têm dado excelente retorno às companhias asiáticas em temas como qualidade de produto, design e técnicas de marketing. De facto, as duas motos que tivemos em comparativo têm um nível de qualidade assinalável, com ainda maior destaque para a Shotgun, que não apenas monta componentes de marcas conceituadas, como a montagem e maioria dos materiais são de boa qualidade.
O mesmo se passa com a Gold Star, apesar de alguns plásticos e alguns elementos que podem ser muito melhorados, a generalidade dos materiais e montagem, com muitos detalhes interessantes, é bastante boa. Ambas têm estilo clássico, mas a BSA é mesmo uma réplica assumida das antigas inglesas, apelando a um público mais antigo que as conduziu no passado ou a quem quer mesmo uma clássica pura. A RE criou a Shotgun com um visual roadster clássico, mas com a customização em mente, para todos aqueles que têm o bichinho de criar uma moto única.
BSA Gold Star
Fui abordado na rua, por um senhor dos seus 80 anos que me veio dar os parabéns pelo restauro da moto, «está linda, tal como a minha quando a comprei nos anos 60». Fiquei genuinamente a pensar na capacidade da marca de reproduzir quase fielmente a Gold Star original, mas também tive de lidar com algum embaraço deste motociclista quando lhe disse que era uma moto nova. Reparámos os dois nos detalhes e é claro que se as formas gerais da moto são muito idênticas, com detalhes da decoração do depósito a imitar bem a original, ou o motor que apesar de ser refrigerado a líquido (com um enorme radiador na frente, cortesia do Euro5) tem as alhetas como se fosse a ar, ou o falso filtro de ar na saída do motor, ou ainda as armas da Birmingham Small Arms Company, que se lê nas motos como BSA, ou até os mostradores duplos analógico-digitais com o mostrador adicional no copo do farol da frente.
Quase tudo bate certo nesta BSA do ponto de vista estético e até mesmo da sua dinâmica, onde a posição de condução é confortável e funcional e as prestações do monocilíndrico uma agradável surpresa. Inicialmente parece que a moto é um pouco lenta a subir de rotação, o som é muito abafado pelo bonito escape e sente-se a falta da habitual sexta velocidade. Senti-a pouco refinada nas sensações que transmitia, até porque as suspensões são secas em mau piso e, a baixa velocidade, a moto parecia que não queria curvar. Mas quando nos começamos a habituar a ela, claramente que vai crescendo em nós e tudo se passa mais facilmente, com a sua maior dificuldade a ser as curvas a alta velocidade, em que a moto se torce e abana numa luta entre o quadro e as suspensões.
É uma moto de passeio e é assim que deve ser abordada, para ir do ponto A ao B não de forma rápida, mas em grande estilo e classe, com as curvas a serem feitas com finesse, a travagem a ser bastante competente e as suspensões apenas suficientes. Uma coisa não gostei mesmo, os mostradores até são bonitos e as partes analógicas bastante visíveis, mas as analógicas são completamente invisíveis à luz do dia, nem precisa estar muito sol. Isto deve-se em parte a estarem numa posição muito horizontal, algo que poderá ser corrigido pela marca em futuros modelos. Os comutadores também não são topo de gama, mas por outro lado monta no guiador do lado esquerdo uma caixa com duas tomadas USB que serão certamente muito úteis para ligar qualquer gadget que o condutor deseje nas suas viagens. Uma moto cujo principal argumento é a estética, a atitude irresistivelmente clássica e que nos remete para o básico do que é gostarmos de motos.
Royal Enfield Shotgun
Grande nome para uma moto que não é uma moto qualquer, é uma aposta firme da Royal Enfield na sua conquista do mundo, uma Roadster de dois cilindros paralelos com muito estilo e atitude. A posição de condução é excelente, se na Gold Star manda o conforto, na Shotgun manda o piloto, sentado mais alto, com os braços abertos no ângulo certo e os pés na posição devida. O banco é confortável e o som do motor mais alto e num tom mais grave. A subida de rotação é feita de forma alegre e vigorosa, sem excesso de vibrações, numa harmonia com a suave caixa de seis velocidades. Não sobe infinitamente, parece que choca com uma parede de potência e a BSA apesar de mais lenta a subir de rotação, parece desenvolver melhor em altas e é mais rápida em velocidade máxima, mas a RE é imbatível em baixas e médias.
Também se sentem as estradas de mau piso, mas esta RE está melhor equipada de suspensões que a sua companheira de ocasião e isso nota-se principalmente a curvar. É muito mais segura de si a curvar rápido, mas numa estrada de serra ou numa sucessão de rotundas tem um comportamento fantástico, quer a mudar de direção, quer na entrada em curva sob travagem, quer na saída em aceleração. Um excelente trabalho entre quadro, motor e elementos ciclísticos que fazem desta Shotgun uma delícia de guiar. A travagem está a bom nível e a suspensão frontal invertida é bastante boa.
O nível de acabamento é elevado, com os comutadores em alumínio em destaque e a instrumentação tem um desenho muito agradável, um misto de moderno e clássico sendo totalmente digital. O mostrador mais pequeno ao lado, o Tripper, pode ser usado com função GPS ponto por ponto e o farol frontal é em LED, fazendo diferença na hora de conduzir à noite. Nota para a fácil alteração da traseira da moto, que ao se retirar o banco do passageiro é possível também retirar o subquadro e transformar a Shotgun em monolugar com uns poucos parafusos. A partir daqui fica à imaginação de cada um poder transformar a sua Shotgun na moto dos seus sonhos.
Gin Tónico ao final do dia
Este poderia ter sido o mote deste trabalho, beber um gin tónico num restaurante indiano em Gibraltar ao final do dia, afinal de contas, a célebre bebida foi tornada famosa pelos soldados britânicos na Índia para prevenir e curar a malária através do quinino constante na água tónica. Porquê o gin? Porque a água tónica era extremamente amarga e porque foi mais uma desculpa para uma bebida alcoólica. Mas ficou para a posteridade a união entre a Inglaterra e a Índia, tão bem patente nestas duas motos e nestas duas marcas, que inclusivamente desenham as suas motos produzidas na Índia em Inglaterra. Será uma aliança de futuro? Será que as motos clássicas inglesas continuarão a agradar a mais consumidores de novas gerações? Bom, o que interessa é o aqui e o agora, com o revivalismo ainda a ter uma boa prestação no mercado das motos a nível mundial e estas motos, apesar de competirem com marcas e modelos mais premium, também têm uma etiqueta de preço mais humilde, abrindo a porta a que um público mais jovem ou revivalista de segunda moto possam ter uma nas suas garagens. A escolha será feita entre o estilo mais custom e o mais clássico e também entre um ou dois cilindros, mas seguramente que quem as escolher vai andar de capacete aberto com um sorriso no rosto que só motos tão puristas podem permitir. God Save the Motorcycle!
Galeria de fotos
Fichas Técnicas:
BSA Gold Star
Preço: desde 6499 €
Motor: monocilíndrico refrigerado por água
Distribuição: DOHC, 4 válvulas
Diâmetro x Curso: N.D.
Cilindrada: 652 cc
Potência máxima: 45 cv / 6.500 rpm
Binário máximo: 55 Nm / 4.000 rpm
Alimentação: Injecção electrónica
Embraiagem: Multidisco em banho de óleo
Caixa: 5 velocidades
Final: Corrente
Quadro: Duplo berço tubular em aço
Suspensão dianteira: Forquilha telescópica de 41 mm
Suspensão traseira: Mola dupla, ajustável
Travão traseiro: 1 disco de 255 mm com pinça Brembo de 1 pistão
Travão dianteiro: 1 disco flutuante de 320 mm com pinça Brembo de 2 pistões
Pneu dianteiro: 100/90ZR18
Pneu traseiro: 150/70ZR17
Altura do assento: 780 mm
Distância entre eixos: 1.425 mm
Capacidade do depósito: 12 litros
Peso a cheio: 213 kg
Importador: Desmotron Portugal
Royal Enfield Shotgun 650
Preço: Desde 7387€
Motor: Dois cilindros refrigerados por ar/óleo
Distribuição: SOHC
Diâmetro x Curso: 78 x 67,8 mm
Cilindrada: 648 cc
Potência máxima: 46,4 cv / 7.250 rpm
Binário máximo: 52,3 Nm / 5.650 rpm
Alimentação: Injecção electrónica
Embraiagem: Multidisco em banho de óleo
Caixa: 6 velocidades
Final: Corrente
Quadro: Duplo berço tubular em aço
Suspensão dianteira: Forquilha telescópica invertida Showa de 43 mm
Suspensão traseira: Mola dupla, ajustável na pré-carga
Travão traseiro: 1 disco de 300 mm com pinça ByBre de 2 pistões
Travão dianteiro: 1 disco flutuante de 320 mm com pinça ByBre de 2 pistões
Pneu dianteiro: 100/90ZR18
Pneu traseiro: 150/70ZR17
Altura do assento: 795 mm
Distância entre eixos: 1.466 mm
Capacidade do depósito: 13,6 litros
Peso a cheio: 240 kg
Importador: Motorien
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