Crónica João Pais #20

João Pais, cronista

Confinamento, guia de ocupação de tempo e de espaços

Inevitavelmente andamos nestes tempos por estes lados de casa, sofá, cozinha e outros possíveis espaços interiores, porque por aqueles do costume não podemos, responsabilidade e respeito ‘oblige’.
Ora andando nós por aqui faz tanto tempo, vamos obrigatoriamente inventando e reinventando ocupações, assim a modos que para evitar uma insânia indesejada, que nisto de dar em maluco é de evitar ou retardar o mais possível.

E por isto mesmo, mexendo e remexendo nas coisas de casa, buscando distracção que dê para animar a miudagem sem escola que nos puxa a atenção a cada cinco minutos, eis que vindo do sótão, da garagem, arrecadação ou outro local de recolha e resguardo de memórias que raramente revisitamos, surge aquele jogo mágico que de repente nos transporta à nossa meninice, aos tempos de espanto e paixão por certo mundo encantado e, perdoem-me a publicidade, a MAJORA trouxe-me um que até fiquei banzado, fui logo aproveitando para brincar aos Brabham e aos Ferrari, aos Lotus, March e aos BRM, deve estar-nos no sangue esta coisa de querer seguir de perto quem ganha ou quem faz por isso, tantas mas tantas manhãs eu abria a caixa do jogo e de imediato me sentia abraçado por sensação de pertença. Eu era daquele mundo deles e nada mais contava, menos ainda se estava eu empoleirado na mesa da cozinha por entre pratos de torradas acabadas de aviar com meia de leite, isso era de somenos, o que era facto e indesmentível era que andava em busca de pódios, glória e aplausos , fugia de despistes e penalizações, anotava tudo num caderninho quadriculado, cada GP e sua classificação, desfiava Mundiais como quem aviava pães com marmelada ao lanche. Mas que saudades de todas aquelas manhãs ou tardes em que nada mais contava a partir do momento da bandeirada o que existia eram eles, o Jackie Stewart, o Jacky Ickx, atentem neste ínfimo mas delicioso pormenor da diferente terminação no nome do escocês e do belga, e isto meus senhores e senhoras, isto era magia na cabeça de um menino de oito anos, que era o que eu era naquele ano, naquele jogo, naquela mesa de cozinha, tanto mas tanto me encantava por ali que ainda hoje guardo a sequência de pontos para quem chegava nos seis primeiros lugares, 9, 6, 4, 3, 2 e 1, desmintam-me se for o caso. E não é!

Mas, se esta revista é de motos, se a crónica também, porque raio vos trouxe este jogo à conversa?… Ora porque o bichinho é o mesmo, é esta coisa que nos nasce em rapazes meninos, não descrimino por aqui as meninas, que bem-vindas elas são, que iguais em sonhos e lutas, mas naquele tempo, se as havia acho que mas escondiam dos posters de parede da revista Volante, perdoem-me por de novo expor a concorrência, carros VS motas, mas regresso à mesma tecla, o fervor que se nos acomete em coisas destas é assunto sério e isso não esmorece se são quatro ou duas as rodas.

Em 1970, quando andava então aqui o escriba a lançar dados na cozinha, pois que nas pistas pelo mundo fora brilhava Giacomo Agostini em sua MV Agusta, e brilhava o suficiente para ser mencionado em pátios da escola, quando não se podendo ser o Eusébio nem havendo lugar na equipa um gajo não se atrapalhava e acelerava nas caricas, sendo eleito para a pantomina de projecção pessoal este italiano de Brescia, e olhem que se alguém na minha escola primaria número cinquenta e qualquer coisa, já não recordo bem, se alguém soubesse onde era Brescia … ou era bruxo ou era mesmo apanhadinho das motos, isso é certo, que a tanto não seduzia nem a geografia, nem chegava o tempo de aula que ensinava todas as serras e rios de Portugal Continental e Ultramarino, ah pois era…

E o que conta, o que verdadeiramente conta, é que por ora fechados em nossas casas, onde há mesas de cozinha, carcaças e meias de leite, temos então à mão a chave para viagem do tempo, aproveitamos e pegamos nos nossos pequenotes e vai daí explicamos-lhes o que é um tabuleiro, com dados e seis miniatura de F1, podemos usar a imaginação e substituímos por qualquer coisa que tenhamos à mão de semear para simular as potentes motos do MotoGP, podem ser grãos ( pintados a cada côr ), plasticina, cortiças recortadas em carenagens de minúcia ( ATT aos apêndices aerodinâmicos proibidos!! ), façam o que vos der na gana, mas não fujam do vosso amor, não reneguem vossa primeira paixão, dizei não à indiferença que vos levou a ‘sótãozinizar’ sem apelo nem agravo aquele tabuleiro de mil manhãs mágicas, de mil tardes a atrapalhar o estudo na escrivaninha, de mil noites adormecidas a pensar que no dia seguinte haveria mais, lá estaria ele e lá estariam vocês.

Perdoem-me se invado vosso espaço, se ouso até penetrar em vossa saudade e memória, mas não será essa possibilidade, essa quase censurável indiscrição, não será uma das armas contra o bicho mau, o carcará sanguinolento como lhe chamaria o terno Sinhozinho Malta trazido por Lima Duarte, um homem com novent’anos e que por isso nos seus oito de idade, imaginando que teria o seu tabuleiro de vivências à mesa de cozinha, pretenderia imitar um René Dreyfuss, um Arthur Nascimento Jr. porque este também era brasileiro, fugindo certamente de querer em sorte lançar os dados de Lang ou Caracciola, isto porque traziam uma bandeira que à época era já de poucos amigos, mas perdoem-me esta invasão dizia eu, mas não resisto a aproveitar este meu passeio fora do sofá, quando pego nas teclas e viajo em busca de tema para a vossa leitura, é isso mesmo que busco, creiam-me um simples estafeta que vos traz cinco, vá lá dez, minutos de entretém, viajando de mãos dadas a coisas que nos unem, como sejam esta agonia que de mês a mês vê prolongado seu epílogo, levando-nos a voar num calendário desbragado aquela sexta-feira onde nos reuniremos de novo à distância, cada um em sua bancada, seu sofá, em silêncio ou em algazarra, espreitando os tempos do Miguel e vaticinando palpites em torno de Marc Marquez, de Valentino, de Jackie e de Jacky, de Dovi e Quartararo, olhando à tabela dos tempos e nela vendo com um sorriso os nomes de Giacomo e Angel Nieto, de Dreyfuss também, que grande e incontornável é nossa capacidade de a todos guardar, seja numa longínqua manhã, num sótão, ou em animadas conversas que trocamos na tecnologia dos dias de hoje, mandando através de um mundo sem fios um abraço a todos quantos em sua altura puderam e souberam arranjar espaço na mesa da cozinha onde iniciavam seu caminho secreto!

Sei entretanto, porque os sigo com atenção, que no MotoGP Virtual Portugal disputam já seu Mundial de Apaixonados Rapazes Grandes, a eles saúdo e envio abraço, esperando que esta crónica dos tempos das consolas de cartão e dados possa apaixonar também.
E agora, deste meu sofá, algures em Carcavelos, segue um abraço para todos, fiquem em casa que um destes dias regressa o Braaaapppppp, como diria o Fausto Macieira!