Viajar de moto é algo a que muitos motociclistas aspiram. Falamos em viagens grandes, não aquelas de algumas centenas de quilómetros com os amigos para ir almoçar a um restaurante especial e à noite estar de volta a casa. E talvez Emilio Scotto seja o maior exemplo de um motociclista com a ‘sede de viajar’ de moto.
Este argentino nascido em 1954 vivia na sua cidade natal, Buenos Aires. Vivia a sua vida como representante de vendas de uma gigante farmacêutica, até que decidiu fazer-se à estrada aos comandos da sua Honda GL1100 Goldwing de 1980. Uma moto que carinhosamente batizou de ‘Black Princess’.
Numa moto que muitos têm algum receio de conduzir por estradas de asfalto – a Goldwing é das maiores motos disponíveis no mercado –, Emilio Scotto não teve receio de partir à aventura através de países, continentes e atravessando locais em guerra e até grandes desertos.
Assim, com uma Goldwing perigosamente carregada com excesso de bagagem, Emilio Scotto partiu da sua Argentina rumo ao desconhecido. Convém destacar que a sua habilidade para navegar para o destino recorrendo aos tradicionais mapas de papel era uma arte desconhecida. Navegar entre fronteiras e controlos fronteiriços também. Mas nada disso o fez parar! O seu desejo de viajar de moto era mais forte do que tudo.

A viagem de Scotto e da sua Honda Goldwing, naturalmente, foi envolta em diversos momentos que ficarão para a história desta que é reconhecida pelo Livro dos Recordes do Guinness como a mais longa viagem de moto até agora realizada.
Entre os momentos que podemos realçar, destacamos logo uma viagem de barco com uma equipa de filmagens que quase lhe custou a vida… por causa de um jogo de cartas! Mas a viagem viria a ter muitas curiosidades e momentos que colocaram a sua vida em risco: enfrentou tempestades de areia sozinho no deserto usando a Goldwing como única proteção. Foi preso seis vezes, roubado cinco vezes e inclusivamente foi alvejado por duas vezes.
As passagens em países como a Nicarágua (1985) em plena guerra civil ou Kuweit mesmo antes do início da invasão em 1991, as visitas a diversos países em África, o continente que Emilio Scotto disse ter sido o mais difícil de viajar de moto e onde atravessou 55 países e passou cerca de um ano a conduzir fora de estrada com a sua moto carregada, onde foi preso e teve mesmo de ser escoltado para sair em segurança da Libéria, não o fizeram parar e continuou sempre com a sua fiel Honda Goldwing.
Não chegou a entrar na Coreia do Norte, ficando-se por uma visita à zona desmilitarizada. E quase não entrava na China, quando lhe pediram que pagasse antecipadamente 70.000 dólares para poder entrar. Felizmente o Moto Clube de Pequim interveio e conseguiu que Emilio Scotto pudesse continuar a viagem.

Apesar da sua viagem não ter sido muito publicitada na altura em que se fez à estrada, em 1986 ficou preso em Nova Iorque. A razão? Não tinha dinheiro para atravessar o oceano! Uma reportagem de um canal de televisão ajudou-o a garantir os fundos para viajar por mar.
E ainda bem, pois a aventura iria durar muitos mais anos e levar Scotto a conhecer o Papa João Paulo II no Vaticano, conhecer o líder líbio Muammar al-Gaddafi que no final da visita lhe deu 300 dólares para ajudar nos custos da viagem na Líbia, sendo que nos últimos anos chegou a contar com patrocínios da Pepsi, Agip e da Metzeler.
Foi também na sua longa viagem que conheceu Monica Pino, com quem viria a casar-se em 1991 numa cerimónia em Nova Deli, Índia. Emilio Scotto viria a ter a companhia da sua esposa nos últimos quatro anos da viagem que terminou em 1995, mais precisamente a 2 de abril, quando reentrou em Buenos Aires escoltado pela polícia.
Mais de 30 anos depois, esta continua a ser a mais longa viagem de moto registada no Guinness. Emilio Scotto e a sua Honda GL1100 Goldwing demonstraram uma resistência incrível ao longo de 10 anos na estrada. Uma paixão pelas viagens de moto que não tem rival e os detalhes desta viagem podem ser conhecidos em pormenor no livro ‘The Longest Ride: My Ten-Year 500,000 Mile Motorcycle Journey’, publicado em 2007.
Quanto à moto, está guardada no Don’s Riverside Car Museum na cidade de Laughlin, no Nevada, Estados Unidos.

Os números da viagem mais longa de moto, por Emilio Scotto numa Honda GL1100 Goldwing
– 10 anos de viagem (início em 1985 e fim em 1995)
– visitou 224 países
– percorreu uma distância total de 735.000 km
– a distância percorrida é o equivalente a dar duas voltas completas à Terra
– utilizou 13 passaportes de 64 páginas cada
– a Goldwing precisou de um motor novo
– gastou 47.000 litros de gasolina
– precisou de 1.300 litros de óleo
– gastou 86 pneus
– precisou de 12 baterias
– trocou o assento por um novo 9 vezes
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