Milwaukee está intimamente ligada à Harley-Davidson. Foi aqui que começou a história do fabricante norte-americano e continua a ser aqui que milhares de motociclistas regressam quando a Harley decide reunir a sua comunidade.
Entre 3 e 6 de setembro, esse regresso ganhou um nome particularmente apropriado: The RIDE Home. Durante quatro dias, o Harley-Davidson Museum e vários concessionários da região de Milwaukee transformaram-se no centro de uma celebração que juntou motos, música, customização, história, passeios e iniciativas solidárias.
E os números alcançados em algumas das atividades mostram que, mais de 120 anos depois da fundação da marca, existe uma coisa que a Harley-Davidson continua a conseguir fazer como poucas fabricantes: mobilizar uma comunidade em redor das suas motos.
Quatro dias com Milwaukee a viver Harley-Davidson
O The RIDE Home começou na quinta-feira, 3 de setembro, com a tradicional Bike Night no campus do Harley-Davidson Museum. A programação prolongou-se até domingo e incluiu concertos, demonstrações, exposições históricas, stunt shows, BMX, gastronomia, atividades do H.O.G. e uma forte componente dedicada à cultura da personalização.

No sábado, por exemplo, realizou-se o V-Twin Visionary Ride-In Custom Motorcycle Show, reunindo máquinas clássicas e preparações distribuídas por várias categorias. Mas o evento não ficou limitado ao museu.
Vários concessionários Harley-Davidson da região participaram também no programa, criando diferentes pontos de encontro para os motociclistas que chegaram a Milwaukee durante o fim de semana.
Essa descentralização é importante: o The RIDE Home não foi simplesmente um evento realizado pela Harley-Davidson num recinto fechado, mas uma celebração espalhada pela cidade e pela região onde a marca nasceu.
Milhares de motociclistas na estrada no último dia
O domingo ficou marcado pelo 19.º Big Unit Poker Run, que partiu do Harley-Davidson Museum e teve como beneficiária a Fisher House Wisconsin. Segundo a própria Harley-Davidson, milhares de motociclistas reuniram-se para participar naquele que é apresentado como o maior Poker Run anual do Wisconsin.
A iniciativa apoia a Big Unit Foundation e, através dela, a Fisher House Wisconsin, organização que presta assistência a veteranos, militares, socorristas e respetivas famílias. A combinação entre motociclismo e solidariedade esteve, aliás, presente em diferentes momentos do The RIDE Home.

Mais de mil motociclistas participaram também num passeio pelo sudeste do Wisconsin destinado a homenagear e apoiar veteranos e socorristas, reforçando uma componente comunitária que há muito faz parte da cultura Harley-Davidson.
Não se tratou, portanto, apenas de reunir motos. Tratou-se de utilizar essa capacidade de mobilização para apoiar causas ligadas às comunidades onde os motociclistas vivem.
Harley homenageou socorristas e uma moto ligada ao 11 de Setembro
A sexta-feira foi especialmente dedicada aos primeiros socorristas. Bombeiros e agentes da autoridade, no ativo ou reformados, tiveram entrada gratuita no Harley-Davidson Museum e a programação incluiu uma cerimónia de homenagem.
Um dos momentos mais simbólicos envolveu Tim Duffy, bombeiro de Nova Iorque que ficou associado a uma das imagens motociclistas mais conhecidas dos atentados de 11 de setembro de 2001.
A sua Harley-Davidson foi apresentada no museu numa cerimónia destinada a preservar a moto como símbolo de coragem, serviço e resiliência. A escolha do momento não foi casual: aproxima-se o 25.º aniversário dos ataques de 11 de setembro.
Num evento dominado naturalmente pela celebração, a Harley-Davidson aproveitou assim para recordar também a ligação histórica da sua comunidade a acontecimentos que ultrapassam largamente o próprio motociclismo.
Uma Harley-Davidson com 100 anos voltou a contar a sua história
O passado da marca esteve igualmente presente de outra forma. No programa Stories from the Vault, a equipa dos arquivos do Harley-Davidson Museum utilizou uma J Model de 1920 para mostrar aos visitantes como era efetivamente viajar de motociclo há aproximadamente um século.
Não apenas através de uma moto parada numa exposição, mas explicando o funcionamento, utilização e dificuldades enfrentadas pelos motociclistas daquela época. É uma pequena atividade dentro de um programa enorme, mas ajuda a explicar a diferença entre possuir simplesmente uma coleção de motos antigas e possuir património.
A Harley-Davidson dispõe de mais de um século de histórias que pode transformar em experiências para os seus clientes. Poucos fabricantes possuem um ativo semelhante.

Customização continua no centro da cultura Harley
Também a preparação de motos teve lugar de destaque. O V-Twin Visionary Ride-In Custom Motorcycle Show recebeu máquinas de diferentes épocas e estilos, com categorias para melhor custom, clássico, pintura, performance, bagger e Vicla, entre outras.
É difícil separar a história da Harley-Davidson da customização. Durante décadas, os proprietários utilizaram as motos da marca como ponto de partida para criar máquinas profundamente pessoais, ajudando a desenvolver uma gigantesca indústria de acessórios e preparadores.
Choppers, bobbers, baggers e inúmeras outras interpretações tornaram-se parte da própria cultura motociclista. Ao colocar novamente as motos preparadas no centro de um grande encontro, a Harley não está apenas a celebrar o passado.
Está a reforçar um dos elementos que continuam a diferenciar a marca num mercado onde cada vez mais motociclos oferecem níveis semelhantes de tecnologia e equipamento.
Mais do que vender motos
É precisamente aqui que o The RIDE Home ganha interesse para além do próprio evento. Uma Harley-Davidson pode ser analisada como qualquer outra moto. Potência, binário, peso, suspensões, eletrónica, preço e desempenho podem ser comparados objetivamente com os concorrentes.
Mas durante grande parte da sua história a Harley conseguiu acrescentar outra dimensão à compra da moto, o pertencer a uma comunidade. H.O.G., concessionários, encontros, viagens, customização, museu, roupa, música e a própria imagem cultural da marca construíram um ecossistema que vai muito além da utilização da moto.

Um cliente pode comprar uma Harley-Davidson para andar ao domingo. Mas pode também encontrar através dela um grupo de amigos, participar em viagens, frequentar encontros ou atravessar centenas de quilómetros para regressar a Milwaukee. Essa ligação não aparece numa ficha técnica, mas possui enorme valor comercial.
Uma força particularmente importante num momento difícil
E talvez essa capacidade seja atualmente ainda mais importante. A Harley-Davidson enfrenta um mercado bastante diferente daquele que permitiu à marca crescer durante décadas.
As grandes cruisers e touring continuam a ser fundamentais, mas a idade média dos clientes tradicionais aumentou e os motociclistas mais jovens encontram hoje uma oferta enormemente diversificada.
Adventure, naked, desportivas de média cilindrada e fabricantes asiáticos com preços extremamente competitivos disputam o mesmo rendimento disponível. A Harley precisa, portanto, de continuar a renovar produto e conquistar novos clientes. Mas isso não significa abandonar aquilo que já possui, pelo contrário. Enquanto fabricantes relativamente recentes investem milhões para tentar criar identidade e comunidade, a Harley-Davidson dispõe de ambas há gerações.

O concessionário continua a fazer parte dessa equação
O próprio formato do The RIDE Home demonstra isso. Os concessionários da região foram parte integrante do encontro, recebendo música, entretenimento, passeios e motociclistas durante todo o fim de semana.
É uma visão do concessionário bastante diferente da simples loja. E surge num momento particularmente interessante para a indústria.
Algumas startups que tentaram construir modelos de venda direta estão agora a descobrir a importância de possuir uma estrutura física capaz de acompanhar os clientes, prestar assistência e criar confiança.
A Harley-Davidson parte de uma posição diferente. A sua rede sempre fez parte da cultura da marca. O desafio passa por conseguir preservar essa vantagem enquanto adapta a experiência às novas gerações.

O regresso a casa
O nome escolhido para o encontro resume bastante bem aquilo que aconteceu em Milwaukee: The RIDE Home. Regressar a casa.
Milhares de motociclistas chegaram à cidade onde a Harley-Davidson começou para andar de moto, ver máquinas customizadas, ouvir música, visitar o museu, reencontrar amigos e apoiar diferentes causas.
Nenhuma dessas atividades, isoladamente, resolve os desafios comerciais que a fabricante norte-americana enfrenta. Mas mostram algo igualmente importante. Apesar de todas as transformações do mercado, a Harley-Davidson continua a conseguir juntar pessoas em redor de uma moto e de um símbolo.
Num setor onde especificações, tecnologia e preço são cada vez mais semelhantes, essa capacidade é difícil de copiar, talvez seja precisamente uma das ferramentas de que a Harley mais necessita para conquistar o futuro sem perder aquilo que a tornou diferente.
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