A próxima grande revolução na segurança das motos poderá não passar por mais potência, melhores travões ou novas suspensões, mas sim pela Inteligência Artificial.
Uma equipa internacional de investigadores desenvolveu um sistema avançado de assistência ao motociclista capaz de identificar perigos específicos para motos e recomendar trajetórias mais seguras em tempo real. O projeto, denominado VLM-Based Advanced Rider Assistance System for Motorcycle Safety, representa uma das abordagens mais avançadas até ao momento no desenvolvimento de sistemas de assistência especificamente concebidos para motociclos.
Ao contrário da maioria das tecnologias atuais, adaptadas dos automóveis para as motos, esta solução foi criada desde o início para responder aos desafios únicos enfrentados pelos motociclistas.
Honda envolvida no desenvolvimento
O projeto resulta da colaboração entre investigadores da North Carolina State University, University of Maryland, University of Tsukuba e do Honda Research Institute USA.

Entre os autores do estudo encontram-se Mohamed Elnoor, Francesca Baldini, Ananya Trivedi, Faizan Tariq, Jovin D’Sa, David Isele, Sangjae Bae, Dinesh Manocha e Yosuke Sakamoto.
O envolvimento direto do centro de investigação da Honda demonstra o crescente interesse da indústria em desenvolver sistemas de assistência especificamente dedicados aos motociclos.
Um ADAS para motociclistas
Nos automóveis, sistemas como travagem automática de emergência, deteção de peões, manutenção na faixa de rodagem ou cruise control adaptativo tornaram-se cada vez mais comuns.
Nas motos, contudo, a evolução tem sido mais lenta.
Embora marcas como BMW Motorrad, Ducati, KTM e Honda já utilizem radares, plataformas inerciais e sistemas eletrónicos avançados, ainda existe um enorme espaço para evolução.
Os investigadores designam este novo conceito como ARAS — Advanced Rider Assistance System — uma espécie de equivalente motociclista dos conhecidos ADAS utilizados nos automóveis.

A moto aprende a interpretar a estrada
O grande salto tecnológico está na utilização de modelos de Inteligência Artificial capazes de compreender o ambiente que rodeia a moto.
O sistema combina câmaras, sensores e algoritmos de visão computacional com modelos de linguagem visual (Vision-Language Models), permitindo analisar a estrada em tempo real e interpretar diferentes tipos de perigo.
Entre os riscos que a tecnologia consegue identificar encontram-se:
- Buracos e deformações do pavimento;
- Poças de água potencialmente escorregadias;
- Gravilha ou areia na estrada;
- Objetos caídos na faixa de rodagem;
- Mudanças repentinas de aderência;
- Obstáculos inesperados.
Mais importante ainda, o sistema não se limita a detetar o perigo. A Inteligência Artificial avalia a gravidade da situação para uma moto e calcula trajetórias alternativas que minimizam o risco.
Como funciona?
A tecnologia cria aquilo que os investigadores chamam de “mapas de risco”.
Cada ponto da estrada recebe uma classificação baseada em fatores como profundidade de um buraco, dimensão de uma poça de água ou localização de um obstáculo.
Com base nesses dados, um algoritmo de planeamento calcula qual a trajetória mais segura para a moto seguir, recomendando ajustes de direção e aceleração que reduzam a exposição aos perigos.
Os investigadores explicam que a solução foi concebida especificamente para as características dinâmicas dos motociclos, algo que diferencia este sistema das tecnologias utilizadas nos automóveis.
Testado em ambiente virtual
Para validar a tecnologia foi utilizado o simulador CARLA, uma das plataformas de desenvolvimento mais utilizadas na investigação de veículos autónomos e sistemas de assistência à condução.
Segundo os resultados divulgados, o novo sistema apresentou taxas de sucesso superiores às de métodos convencionais, reduzindo significativamente a exposição a zonas perigosas e produzindo recomendações de condução consideradas mais seguras.
Além disso, os investigadores destacam que o sistema consegue explicar visualmente porque considera determinada zona perigosa, algo importante para aumentar a confiança do utilizador e facilitar futuras aplicações comerciais.
O futuro da segurança em duas rodas
O estudo surge numa altura em que os motociclos continuam a apresentar níveis de risco significativamente superiores aos dos automóveis, principalmente devido à menor proteção física dos ocupantes e à maior sensibilidade às condições do piso.
Embora ainda esteja numa fase de investigação, a participação do Honda Research Institute USA sugere que algumas das soluções agora apresentadas poderão vir a influenciar futuras gerações de sistemas de assistência presentes nas motos de produção.
Se os radares representaram a primeira grande vaga tecnológica dos motociclos modernos, a Inteligência Artificial poderá muito bem ser a próxima. E, pela primeira vez, uma moto poderá não apenas reagir a um perigo, mas antecipá-lo antes mesmo de o condutor se aperceber da sua existência.
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