A KTM está no centro de uma das maiores polémicas que alguma vez atingiu a indústria motociclística europeia, depois de uma investigação internacional ter revelado alegadas práticas sistemáticas de desbloqueio de motos homologadas para circulação rodoviária, permitindo aumentar significativamente a potência, o ruído e os níveis de emissões poluentes.
A investigação, denominada “Unrestricted”, envolveu dez meios de comunicação europeus, entre eles o Le Monde, El País, Der Spiegel e L’Espresso, em parceria com a organização Climate Whistleblowers. O caso já está a ser comparado ao escândalo Dieselgate que abalou a indústria automóvel há pouco mais de uma década.
No centro das acusações estão principalmente os modelos KTM EXC e EXC-F, bem como algumas motos equivalentes das marcas Husqvarna e GasGas, todas pertencentes ao universo KTM. Segundo a investigação, estas motos seriam homologadas numa configuração altamente restritiva para cumprir os exigentes requisitos Euro 5+ em matéria de emissões e ruído, sendo posteriormente desbloqueadas antes ou no momento da entrega ao cliente.
Concessionários confirmam prática em vários países
Um dos aspetos mais delicados da investigação é o facto de vários concessionários contactados em França, Alemanha, Áustria, Espanha, Itália e Reino Unido terem alegadamente confirmado o processo.

Segundo os jornalistas envolvidos, todos descreveram métodos semelhantes de remoção das restrições eletrónicas e mecânicas instaladas para homologação. Em vários casos, os vendedores terão admitido que a configuração limitada existe apenas para permitir a matrícula e certificação das motos.
A investigação refere ainda que os concessionários recebem kits específicos compostos por sistemas de escape alternativos, componentes de admissão, atualizações de software e outros elementos destinados a devolver às motos a configuração de potência máxima. Um distribuidor francês chegou mesmo a afirmar que o processo demora apenas alguns segundos através de ligação eletrónica ao sistema da moto.
Emissões até 20 vezes superiores
Os resultados mais preocupantes surgem dos testes laboratoriais realizados pelo ICCT (International Council on Clean Transportation) e por instituições universitárias independentes.
Segundo os dados divulgados, algumas motos alegadamente desbloqueadas apresentaram emissões de monóxido de carbono e partículas muito superiores aos limites permitidos pela legislação europeia, chegando em determinados cenários a ultrapassar largamente os valores homologados.
A investigação conclui que as motos entregues aos clientes poderão circular com documentação correspondente à configuração homologada, apesar de se encontrarem mecanicamente diferentes da versão certificada.

KTM rejeita acusações
A KTM respondeu oficialmente às acusações negando qualquer infração.
Segundo o fabricante austríaco, todas as motos KTM, Husqvarna e GasGas são entregues aos concessionários em conformidade com os requisitos legais e homologações aplicáveis. A marca afirma que qualquer modificação posterior apenas poderá ocorrer por iniciativa do cliente para utilização em competição, deixando automaticamente de ser válida a homologação para utilização em estrada.
No entanto, a investigação refere que diversos testemunhos recolhidos contradizem essa versão, incluindo declarações atribuídas a responsáveis ligados à própria rede comercial da marca.
Um problema maior do que a KTM?
Uma das questões mais preocupantes levantadas pelo caso é a possibilidade de a KTM não ser a única marca a recorrer a este tipo de prática.
Especialistas ouvidos durante a investigação admitem que o fenómeno do desbloqueio de motos homologadas é conhecido dentro do setor há muitos anos, particularmente no universo enduro e off-road. Contudo, a dimensão alegadamente industrializada do sistema agora descrito poderá colocar em causa todo o modelo atual de homologação de determinadas motos de utilização dupla, estrada e competição.
As autoridades alemãs responsáveis pelas homologações europeias já confirmaram que irão analisar as denúncias. Ao mesmo tempo, organizações ambientais e vários eurodeputados pedem investigações aprofundadas e eventual revisão dos mecanismos de fiscalização atualmente existentes.
Se as acusações vierem a ser confirmadas, o impacto poderá ser enorme para a KTM, para as suas marcas associadas e para toda a indústria das motos de enduro na Europa, numa altura em que os fabricantes enfrentam pressão crescente para reduzir emissões, cumprir normas ambientais cada vez mais apertadas e justificar a continuidade dos motores de combustão nos próximos anos.
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