A KTM enfrenta uma corrida contra o tempo fora das pistas. Depois de uma primeira metade da temporada de MotoGP marcada por problemas de fiabilidade, a fábrica de Mattighofen recebeu finalmente a autorização necessária para abrir alguns dos motores da RC16 e tentar perceber exatamente aquilo que está a provocar as anomalias.
A situação é particularmente delicada porque os atuais motores de 1000 cc estão sujeitos ao chamado “engine freeze”, que limita o desenvolvimento técnico antes da entrada do novo regulamento de 850 cc em 2027.
Na prática, a KTM não podia simplesmente desmontar um motor, encontrar a origem do problema, substituir componentes e regressar à pista.
Primeiro precisava de convencer os restantes fabricantes de que existia uma justificação legítima, nomeadamente relacionada com segurança, para quebrar os selos. E é precisamente aí que surge agora uma importante evolução.

KTM poderá abrir os motores em Aragón
A KTM recebeu finalmente a necessária autorização para abrir motores da RC16 e realizar uma investigação técnica aprofundada, com os trabalhos previstos para Aragón.
O objetivo não passa por procurar mais potência ou introduzir uma evolução de performance. A questão é muito mais básica — e importante: descobrir por que razão alguns motores deixaram de ser considerados seguros para utilização.
O próprio diretor da KTM Motorsport, Pit Beirer, já tinha reconhecido publicamente a existência de um problema interno nos propulsores. A fábrica chegou mesmo ao ponto de retirar algumas unidades de serviço por considerar que existia um risco associado a determinados componentes.
É uma situação especialmente invulgar porque a especificação do motor está homologada desde o início de 2025 e, segundo a KTM, os componentes utilizados permaneceram essencialmente os mesmos. Ou seja: aquilo que funcionava anteriormente começou a apresentar problemas em 2026.
Um mistério que a KTM precisa de resolver
Essa é precisamente uma das grandes questões que os engenheiros pretendem esclarecer quando tiverem acesso ao interior dos motores.

Ao longo da temporada, as RC16 sofreram diferentes problemas técnicos. Nem todos estiveram necessariamente relacionados com o mesmo componente: houve dificuldades de embraiagem, problemas nos dispositivos de altura e situações em que as motos simplesmente perderam potência ou se desligaram.
Em Assen, por exemplo, Pedro Acosta sofreu dois problemas técnicos durante a manhã de sábado, um no segundo treino livre e outro na qualificação. Nesse caso, a equipa apontou para um problema num sensor, aparentemente provocado pelas passagens nos corretores.
Mas as dificuldades recorrentes acabaram por levantar suspeitas sobre a fiabilidade dos próprios motores. Beirer confirmou posteriormente que existia efetivamente algo errado no interior de algumas unidades e que determinados propulsores já não estavam a ser utilizados por razões de segurança.
Porque não podia a KTM simplesmente reparar o motor?
A resposta está no regulamento. Com a mudança radical das regras prevista para 2027, quando o MotoGP passará dos atuais 1000 cc para 850 cc, foi decidido congelar o desenvolvimento dos atuais motores como forma de controlar custos.
Para fabricantes sujeitos ao congelamento, os motores são selados e a sua especificação interna não pode ser livremente alterada.
Uma intervenção motivada por questões de segurança ou fiabilidade pode ser autorizada, mas implica um processo de aprovação que envolve os restantes fabricantes através da MSMA. Foi aqui que a KTM encontrou um obstáculo inesperado.
Segundo a informação anteriormente avançada pelo mesmo meio, a Aprilia tinha sido inicialmente o único dos fabricantes rivais a dar luz verde à intervenção, deixando a KTM à espera da necessária aprovação dos restantes concorrentes. Essa situação terá agora sido desbloqueada.
Não se trata de encontrar mais cavalos
Este ponto é particularmente importante. A autorização não deverá transformar-se numa oportunidade para a KTM desenvolver uma versão mais potente do V4 da RC16.
O propósito é identificar a falha e, caso seja necessário substituir ou modificar algum componente, demonstrar que a alteração é motivada por razões de segurança e fiabilidade, e não pela procura de uma vantagem competitiva.

Os componentes poderão ser comparados com o motor de referência depositado junto da direção técnica, precisamente para garantir que uma eventual intervenção respeita os limites previstos pelo regulamento. A KTM terá, portanto, de provar tecnicamente aquilo que pretende alterar e porquê.
Potência reduzida para proteger os motores?
Enquanto procurava uma solução definitiva, a KTM terá recorrido a uma medida muito mais simples: reduzir as exigências colocadas sobre o motor.
De acordo com o Motorcycles.News, a potência terá sido limitada como forma de diminuir o risco de novas falhas. No Sachsenring, a estratégia permitiu atravessar o fim de semana sem problemas técnicos significativos, embora naturalmente com consequências ao nível das prestações.
E num MotoGP onde décimos de segundo separam frequentemente várias posições, abdicar de performance para garantir que a moto chega ao fim está longe de ser uma situação ideal. Sobretudo para uma KTM que pretende dar aos seus pilotos uma RC16 capaz de lutar regularmente pelos lugares da frente.
Segurança está também em causa
Existe ainda uma dimensão mais importante do que os resultados. Um motor que perde potência ou se desliga inesperadamente numa moto de MotoGP pode representar um problema de segurança não apenas para o piloto da KTM, mas também para quem segue imediatamente atrás.
A velocidades superiores a 300 km/h, uma desaceleração inesperada pode criar uma situação particularmente perigosa. Foi precisamente o argumento da segurança que deu à KTM a base regulamentar para solicitar autorização para investigar e, se necessário, corrigir o problema.
Aragón poderá finalmente dar respostas
A abertura dos motores será, por isso, um momento importante para o departamento de competição de Mattighofen.
Até agora, a KTM sabia que existia um problema e tinha conseguido reproduzir determinados sintomas, mas não tinha identificado de forma conclusiva a causa interna das falhas.
Com os motores finalmente abertos, os engenheiros poderão procurar sinais de desgaste anormal, falhas de material ou problemas de fabrico que ajudem a explicar por que razão unidades de uma especificação anteriormente considerada fiável começaram a apresentar dificuldades. E encontrar a causa rapidamente será fundamental.
A temporada de 2026 entrou na segunda metade e a KTM precisa de recuperar não apenas performance, mas sobretudo confiança na fiabilidade da RC16.
Ao mesmo tempo, uma parte significativa dos recursos de engenharia já estará inevitavelmente concentrada na moto de 850 cc para 2027, tornando pouco desejável gastar meses a resolver problemas numa geração de motores que está perto do fim da sua vida competitiva. A autorização para quebrar os selos pode, finalmente, permitir encontrar a resposta.
Antes de procurar tornar a RC16 mais rápida, a KTM precisa agora de garantir algo ainda mais importante: perceber exatamente o que se passa dentro do seu motor.

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