No mercado das duas rodas há marcas que se medem pelo número de matrículas. E existem outras que também precisam de ser medidas pelo número de pessoas dispostas a atravessar países inteiros simplesmente para regressar ao lugar onde as suas motos nasceram, tal como a Moto Guzzi.
A edição 2026 dos GMG – Moto Guzzi World Days levou mais de 60.000 pessoas a Mandello del Lario, na margem do Lago de Como, durante quatro dias de celebração de uma das marcas mais históricas do motociclismo europeu. A maioria chegou precisamente da forma que seria de esperar: de Moto Guzzi.
60.000 pessoas numa pequena cidade italiana
O número é particularmente impressionante quando colocado em contexto. Mandello del Lario possui pouco mais de 10.000 habitantes. Durante os Moto Guzzi World Days, o universo da marca multiplicou temporariamente a população da pequena localidade italiana.
Motociclistas provenientes de vários países convergiram para o mesmo endereço onde as Moto Guzzi são construídas desde 1921. A histórica porta vermelha da Via Parodi voltou assim a tornar-se um ponto de peregrinação para milhares de Guzzisti. Mas desta vez havia uma razão adicional para entrar.

40.000 pessoas quiseram conhecer a nova casa
Os World Days coincidiram com a abertura das novas instalações da Moto Guzzi. E a curiosidade foi enorme. Segundo os números oficiais do Piaggio Group, cerca de 40.000 pessoas visitaram a renovada casa da Moto Guzzi, enquanto o novo museu registou aproximadamente 30.000 entradas durante o evento.
Não estamos apenas perante uma fábrica renovada. Depois de quase cinco anos de obras e mais de 50 milhões de euros de investimento, praticamente todo o complexo industrial foi transformado. O mais importante, porém, permaneceu exatamente onde estava. A Moto Guzzi continua em Mandello.
Desde 1921 no mesmo lugar
Num setor onde fábricas fecham, produção é transferida entre continentes e marcas históricas mudam repetidamente de proprietário, a permanência da Moto Guzzi em Mandello possui enorme significado.
As motos continuam a sair do mesmo complexo onde são fabricadas continuamente desde 1921. O Piaggio Group poderia ter construído uma unidade completamente nova noutro lugar. Escolheu fazer precisamente o contrário. Investiu mais de 50 milhões de euros para transformar o local histórico numa instalação industrial moderna.
É uma decisão empresarial, mas também uma decisão de marca. Porque retirar a Moto Guzzi de Mandello seria retirar parte daquilo que torna uma Moto Guzzi diferente.

Uma fábrica capaz de produzir mais de 30.000 motos por ano
Por trás da emoção existe uma operação industrial profundamente renovada. A nova fábrica passa a ter capacidade para produzir mais de 30.000 motos anualmente.
O novo edifício dedicado aos motores está ligado à montagem final através de sistemas robotizados, enquanto as motos terminadas são transportadas para a fase de testes através de drones terrestres Kilo, desenvolvidos pela Piaggio Fast Forward.
A unidade integra ainda aproximadamente 1.300 metros quadrados de painéis fotovoltaicos, além de soluções destinadas a aproveitar melhor a iluminação natural. História do lado de fora e automação do lado de dentro.

O museu também nasceu de novo
A transformação inclui um novo museu com cerca de 3.000 metros quadrados. No seu interior encontram-se mais de 160 motociclos restaurados, começando pelo protótipo G.P. de 1919 e atravessando mais de um século de produção, competição e engenharia italiana.
Mas talvez a peça historicamente mais importante não seja uma moto. É o túnel de vento construído em 1950. Foi o primeiro criado por um fabricante de motos e teve um papel fundamental no desenvolvimento das carenagens aerodinâmicas que ajudaram a Moto Guzzi a dominar a competição durante parte daquela década.
Em vez de o demolir durante as obras, a empresa restaurou-o, sendo provavelmente a melhor metáfora para todo o projeto.

1.500 Moto Guzzi num único desfile
O momento visualmente mais impressionante dos World Days aconteceu no sábado. Um desfile reuniu 1.500 Moto Guzzi de diferentes épocas e modelos no percurso entre Lecco e Mandello. À frente seguiram os Corazzieri, a guarda de honra do Presidente da República Italiana, utilizando as suas Moto Guzzi California 1400 oficiais.

Logo atrás surgiram nomes conhecidos do motociclismo desportivo: Marco Bezzecchi, Lorenzo Savadori e Max Biaggi. À chegada à fábrica juntaram-se ainda Jorge Martín e elementos da Aprilia Racing. É difícil imaginar uma celebração mais italiana das duas rodas.
Uma marca com uma comunidade enorme
Mas talvez os números revelem algo mais importante do que o sucesso de um evento. A Moto Guzzi não vende centenas de milhares de motos por ano. Não possui a dimensão mundial de Honda, Yamaha ou BMW Motorrad.
Mesmo dentro do Piaggio Group, a Vespa possui uma presença comercial muito superior. E, no entanto, mais de 60.000 pessoas deslocaram-se a Mandello para celebrar a marca. Esse é um ativo que não aparece facilmente num relatório de matrículas. Chama-se comunidade.
É também por isso que o Piaggio Group investiu 50 milhões
O investimento na nova fábrica começa a fazer ainda mais sentido quando observado desta perspetiva. O Piaggio Group não está apenas a modernizar uma linha de produção, está a investir num universo de marca construído durante 105 anos. Fábrica, museu, arquivo, Motoplex Store, café, espaços para eventos e possibilidade de visitar a produção.
Tudo transforma Mandello numa espécie de sede mundial da comunidade Moto Guzzi. A comparação com marcas como Ducati, BMW Motorrad ou Harley-Davidson é inevitável. Uma fábrica pode fabricar motos. Um destino de marca consegue fabricar também ligação emocional.

Mandello não é apenas onde se fabricam as Moto Guzzi
Talvez seja esta a grande conclusão dos World Days 2026. O Piaggio Group investiu mais de 50 milhões de euros numa fábrica moderna capaz de produzir mais motos, com automação, robótica e novas soluções energéticas. Isso é importante para o futuro comercial da Moto Guzzi.
Mas 60.000 pessoas não foram a Mandello ver robots. Foram porque aquele pequeno ponto junto ao Lago de Como representa algo para quem conduz uma Moto Guzzi. Há mais de um século que as motos saem pela mesma porta.
Agora, atrás dessa porta existe uma das fábricas mais modernas da história da marca. O futuro chegou a Mandello. Felizmente, Mandello continua exatamente no mesmo lugar.
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