A recente aquisição do MotoGP por parte dos americanos da Liberty Media tem e vai ter no futuro um grande impacto na forma como analisamos este campeonato mundial. Os novos donos do MotoGP querem introduzir novidades a vários níveis, algumas delas já confirmadas, como a expansão para novos países ou alterações nas cerimónias de cada Grande Prémio, outras por confirmar, como a separação do paddock de forma a criar uma área específica para as equipas de Moto2 e Moto3.
Mas a estratégia dos responsáveis do campeonato, de acordo com um artigo publicado no diário espanhol El Periódico, assinado pelo jornalista Emilio Perez de Rozas, visa realizar alterações mais profundas e que até podemos considerar polémicas.
Embora ninguém assuma publicamente, nem a Liberty Media, nem a Dorna, nem a Federação Internacional de Motociclismo (FIM), e poucos dias depois de ser apresentado o renovado troféu dos campeões de MotoGP numa gala em Misano, tudo indica que a partir de agora apenas serão contabilizados os títulos obtidos na categoria rainha: 500 cc ou MotoGP.
Isto significa que muitos dos grandes campeões que admiramos deixam de contar para as estatísticas, e assim teremos pilotos que de um momento para o outro ‘perdem’ os seus títulos. Apenas os títulos de 500 cc / MotoGP são ‘válidos’, enquanto os restantes são menosprezados. Títulos que tenham sido conquistados nas 50 cc, 80 cc, 125 cc, 250 cc, 350 cc deixam de ser contabilizados.

O objetivo desta decisão é claro: destacar o MotoGP (ou as 500 cc) como a ‘verdadeira categoria’ que define o grande campeão do Mundial de Velocidade. Esses são os títulos que verdadeiramente contam para os registos.
O diário espanhol chega mesmo a publicar uma informação obtida, de acordo com Emilio Perez de Rozas, através de um porta-voz oficial do campeonato, durante o Grande Prémio de São Marino, e que confirmará esta estratégia:
“Desde este ano foi tomada uma decisão antes do final da temporada, ou seja, não tem a ver com a possibilidade do título que será conquistado por Marc Márquez, o organizador do Mundial começou a contabilizar os títulos de MotoGP e a falar mais de MotoGP e menos das outras categorias. Nesse sentido, o que será celebrado no Japão, caso Marc Márquez consiga fechar o título, será o seu 7º título mundial de MotoGP. Isto significa também que deixámos de dizer categoria rainha (500/MotoGP) e apenas usamos MotoGP. Por isso, Giacomo Agostini será 8 vezes campeão, Marc Márquez será 7 vezes, Valentino Rossi será 7 vezes e Mick Doohan será 5 vezes campeão de MotoGP”.
Por estas contas, Marc Márquez, se realmente confirmar a conquista do título este ano, ficará empatado com Valentino Rossi, mas ficará agora a apenas 1 título de igualar o ‘novo’ registo de Giacomo Agostini, que de 15 títulos mundiais passa agora a ter apenas 8 títulos de MotoGP.

Se tudo isto já soa a um reescrever da história do motociclismo de competição, e um ‘apagar’ dessa história o nome de grandes pilotos que foram campeões nas categorias mais pequenas do Mundial de Velocidade, como por exemplo Ángel Nieto que tem 12+1 títulos divididos entre as 50 e 125 cc, ou Jorge Martínez Aspar com quatro títulos de 80 e 125 cc, ou até mesmo parte do recorde de Giacomo Agostini que perde 7 títulos ‘da noite para o dia’ e pode agora ser igualado mais facilmente no topo da hierarquia, temos ainda a informação por parte do El Periódico que Marc Márquez recebeu a recomendação por parte dos organizadores do campeonato para não celebrar o título, quando o conquistar, como se fosse o seu 9º título.
Em ocasiões anteriores vimos o #93 a festejar com bolas de bilhar pretas com o respetivo número do título, como aconteceu em 2019 no circuito Chang International no Grande Prémio da Tailândia. Nessa altura, a bola preta com o número 8, referente aos 8 títulos conquistados em todas as categorias do mundial.
Caso feche as contas do título no Japão, veremos o piloto espanhol a celebrar com o #1 nas t-shirts e cartazes diz o El Periódico. À falta de uma reação oficial por parte do piloto, talvez seja possível justificar isso com o facto de regressar ao topo do MotoGP como o melhor piloto do campeonato, o #1, ou então por este ser o primeiro título enquanto piloto da Ducati.
Claro que uma decisão deste género leva, inevitavelmente, a que existam reações de nomes históricos.

Por exemplo, Sito Pons, campeão de 250 cc por duas vezes, mostra-se atónito com esta nova forma de contabilizar campeões do Mundo, esquecendo pilotos lendários que ao longo da sua carreira se concentraram ou especializaram a competir nas categorias de cilindrada mais baixa:
“Não são eles que escrevem a história do motociclismo, não são eles que decidem quem merece ou quem não merece ser denominado de campeão do Mundo, não são eles que propõem uma única galeria de campeões do Mundo. A história vai-se escrevendo passo a passo, ano após ano, e os pilotos que arriscaram a sua vida para serem campeões do Mundo, seja em que categoria for, continuarão a sê-lo para todos nós. Ángel Nieto continuará a ter 12+1, Aspar quatro e eu dois. Repito: queiram ou não, isto está escrito a letras douradas no livro da história. Fora isto, parece-me uma barbaridade o que estão a propor”, diz Sito Pons ao El Periódico.
Está assim lançado o debate sobre um assunto que promete ser polémico, quer para os fãs, quer para os atuais ou antigos pilotos que podem ser ‘apagados’ da história do Mundial de Velocidade. E veremos em breve se tudo isto se confirma e se existirá alguma informação oficial sobre esta decisão.
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