LÉS-A-LÉS. O QUE É E PARA QUE SERVE?
A minha resposta é simples. Não sei. Não sei nem tenho que saber, mas posso tentar APENAS dar a minha humilde opinião sobre o Lés-a-Lés.
O Lés-a-Lés surgiu da cabeça de portugueses que arriscaram sonhar diferente, em ver mais além, em fazer o que tantos diziam que nem valia a pena tentar.
É assim Portugal desde o tempo dos Descobrimentos (e dos “Velhos do Restelo”).
É assim Portugal desde que um pequeno grupo de “marafados” do Moto Clube de Faro se lembrou de fazer uma concentração (num país em que quase nem havia motos).
E é assim Portugal desde a nossa Lei dos Rails, 125 cc, Pacotão, etc… (e da velha Europa a tentar sonhar com a nossa liberdade).
Ou seja, até algo ser feito, a maioria das pessoas diz ser impossível, perigoso, desnecessário ou, no mínimo, dá palpites, mas sem nunca oferecer ajuda (que opinar é sempre um verbo menos suado do que trabalhar). Mas quando algum desses sonhos vê a luz do dia, vinga em sucesso e serve de exemplo para todos, logo aparecem “novos velhos do Restelo” agora a dizer que tudo é fácil, caro e que, claro, eles saberiam fazer muitíssimo melhor.

A minha opinião sobre este e sobre muitos outros projetos nacionais é simples:
VIVEMOS NUM PAÍS LIVRE E NINGUÉM É OBRIGADO A IR. E QUEM ACHA QUE CONSEGUE FAZER MELHOR, ENTÃO QUE O TENTE FAZER. CASO CONTRÁRIO, TENHAMOS TODOS A HUMILDADE DE ELOGIAR QUEM FAZ.
Pessoalmente, vou há duas décadas e este ano não foi exceção. Não “preciso” da desculpa do Lés-a-Lés para viajar ou para fazer quilómetros, mas ali tenho quilómetros especiais, por sítios especiais e junto com pessoas especiais.
Deixem-me tentar explicar melhor. Eu já ando de moto o ano todo e ACHO que já conheço muito bem o nosso país, mas, a cada novo Lés-a-Lés, concluo que ainda há muito mais país por descobrir. Este ano, à conversa com o grande Ernesto Brochado, um “H”omem (maiúscula propositada) cuja moto conhece melhor Portugal do que o Google Maps, falámos sobre O MEU TOP3 de momentos e eu sabia-os bem de cor e salteado:
EM TERCEIRO LUGAR: “ALVOCO DA SERRA” (nome exato, se a memória não me falha)
Há uma dúzia de anos, o roadbook atirou-me para uma SUBIDA IMPOSSÍVEL numa velha “estrada romana”. Aliás, era o próprio roadbook que nos perguntava “TENS TUDO BEM AMARRADO?”. A razão era simples, a inclinação e o empedrado eram tais que as motos CHOCALHAVAM DESALMADAMENTE e sofriam em primeira velocidade só para conseguirem subir sem parar.
Eu NUNCA, NUNCA, NUNCA teria ido por aquela estrada se não fosse pelo evento, mas o certo é que ali, incentivado pelos amigos, acabei por ir. Chocalhei e tremi por todos os lados (MUITO MAIS EU DO QUE A MOTO) e cheguei lá acima inteiro, de sorriso no trombil e a gritar (literalmente) à paisagem “SOU O MAIOR!”. Nunca mais lá voltei (até por medo) mas lembro-me muitas vezes do que afinal consegui fazer APENAS por ter acreditado nos que me diziam que eu conseguiria.
EM SEGUNDO LUGAR: “SENHOR DA PEDRA”
Os habitantes de lá nem parecem lhe achar uma beleza do outro mundo, mas eu lembro-me bem da única vez que o vi. No Lés-a-Lés desse ano, já com horas de condução em cima, com nevoeiro nos olhos ou nos céus, guiei a minha moto por entre ruas até à linha do mar. Com a cabeça a pensar na “morte da bezerra”, fiquei à espera de ver o tal “nevoeiro” a dissipar-se ao chegar ao pé do mar, mas o que aconteceu foi exatamente o oposto.
Nos últimos metros antes da linha de água, onde o roadbook nos dizia para cortar à esquerda e seguir em frente, eu continuei a olhar em frente e acabei a dar de caras com uma igreja construída em cima de um “calhau” encastrado dentro do próprio mar.
Que visão digna de D. Sebastião e que eu NUNCA teria tido se não fosse pelo Lés-a-Lés que insiste em mostrar-me um país que eu julgava já conhecer.
MEDALHA DE OURO: “BARRAGEM MARECHAL CARMONA”
Num dos Lés-a-Lés mais quentes de que tenho memória, calhou termos uma etapa “pesada” que terminou a passar por esta barragem. O calor era tal que a organização até montou a sua “banca de controle” DENTRO DE ÁGUA para obrigar os participantes a terem que se molhar. Ao chegar lá, olhei para a água, virei-me para o meu parceiro de equipa e disse-lhe apenas: “ESQUECE! VAMOS CHEGAR ATRASADOS”.
Abri a mala da moto, tirei os meus calções de banho, atirei-me à água e, durante meia hora, atravessei a barragem inteira nas calmas e voltei com um sorriso cheio de pirolitos de água doce. Chegámos atrasados, mas cheguei ao palanque da meta com uma moto fresca e a minha “alma lavada”… QUE É O QUE TODOS NÓS PROCURAMOS TODA A VIDA.
Em resumo, acho que o Lés-a-Lés é mesmo isto, AQUILO QUE NÓS BEM ENTENDERMOS. A felicidade não tem uma receita igual para todos… mas o certo é que todos nós, cada um à sua maneira, a atinge ali.
Para o ano, estarei de volta no Lés-a-Lés 2026.
Nem sei por onde andará… mas já sei que irei.

#PostScript: “MENÇÃO HONROSA”
No meu primeiro Lés-a-Lés, fui o último a chegar ao ponto de controle do “Pulo do Lobo”. A organização já tinha levado a banca e tudo. Como o roadbook dizia para “DESCER ATÉ AO PULO DO LOBO”, a minha equipa desceu MESMO ATÉ LÁ AO FUNDO, um deles acabando a cair na subida de regresso. Só quando chegámos ao fim é que nos contaram que a mesa de controle era, afinal, uns 300 metros CÁ EM CIMA!!
Mas, tal e qual disse ao Ernesto, QUE QUERO VER ATÉ ÀS BODAS DE OURO DO LÉS-A-LÉS, quando cruzei a meta em ÚLTIMO LUGAR do milhar de participantes: “EU PREFIRO SER O ÚLTIMO A CHEGAR DO QUE O PRIMEIRO A FICAR EM CASA”.
Texto: Rodrigo Ribeiro
Todos os meses o Rodrigo Ribeiro, motociclista ferrenho, advogado e ex-deputado, escreve para a Revista Motojornal a sua crónica “A Voz do Rodrigo”. Leia-a sempre primeiro na sua revista ou recorde-a aqui em Motojornal.pt .
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