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Opinião – A Voz do Rodrigo Ribeiro: O Preço da ‘Normalidade’

Rodrigo Ribeiro, advogado, ex-deputado e um motociclista ferrenho. Aqui fica a crónica da Revista Motojornal #1582 sobre a evolução da comunidade das duas rodas em Portugal.

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A Voz do Rodrigo Ribeiro

Rodrigo Ribeiro
Rodrigo Ribeiro, autor da crónica A Voz do Rodrigo na Revista Motojornal

Há muitos, muitos anos, creio que ainda no “tempo dos escudos”, o ‘Tó Manel’ cunhou nesta mesma revista uma expressão que me acompanha até hoje. Escreveu ele na altura sobre o “PREÇO DA NORMALIDADE” que iríamos pagar quando as motos deixassem de ser uma “exceção” para serem antes uma “regra”.

A maioria dos portugueses já nem se lembra, mas Portugal costumava ser um país em que andar de moto era só “coisa de pobre”. Quem tinha dinheiro, ou que queria fingir que o tinha, exibia sempre um automóvel, nem que que só o usasse como “condutor de domingo”. Não há muitas décadas, o automóvel era exibido como hoje alguns exibem um telemóvel de última geração… que lhes custa mais do que conseguem ganhar num mês inteiro de trabalho.

Em síntese, na altura (e, infelizmente, também ainda hoje em dia): MUITOS CONDUTORES GASTAM DINHEIRO QUE NÃO TÊM, EM VEÍCULOS DE QUE NÃO PRECISAM, PARA TENTAR IMPRESSIONAR PESSOAS QUE NÃO INTERESSAM.

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E em que é que as motos vieram mudar este paradigma? Em TUDO, respondo eu.

Algures em 1992, o velhinho ALD (aluguer de longa duração), o Leasing e as vendas em 1001 prestações iniciaram todo um país em DUAS RODAS COM POTÊNCIA. Isto é, Portugal passou diretamente das bicicletas com mola na perna da calça e das Sachs, Casal, Zundapp e demais cinquentinhas para “motões” que já permitiam sonhar mais alto, ir mais longe, mais rápido e com mais fiabilidade.

E foi assim que, em apenas uma dúzia de anos, Portugal passou a ter um parque de motos potente, mas ainda não massificado. Ou seja, também tínhamos “malta de cabedal” que demasiados viam apenas como “feios, porcos e maus” que faziam já viagens e concentrações… mas ainda não tínhamos a maioria dos portugueses a verem as motos como simples VEÍCULO UTILITÁRIO DE USO GENERALIZADO.

Isso veio a acontecer na primeira década do século XXI, sendo a “Lei das 125 cc” a “cereja no topo do bolo” da generalização do uso das motos como veículo das 1001 deslocações utilitárias e pendulares casa-emprego.

Hoje, em 2025, chegámos finalmente à “democratização” das motos, em que é quase impossível olhar para uma qualquer cidade portuguesa que não conte já com milhares de veículos de duas rodas a motor por todo o lado.

E não é só uma questão de números, dos MILHÕES de portugueses que já beneficiam direta ou indiretamente com as motos, nem sequer dos MILHÕES que Portugal poupa todos os anos em manutenção de infraestruturas rodoviárias, estacionamento, poluição, horas de trabalho, saúde, etc.

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É também uma questão de “DEMOCRATIZAÇÃO” de quem anda de moto, algo como NUNCA se tinha visto antes. Hoje em dia, continuamos a ter o idoso na aldeia com a sua cinquentinha e mantemos os “duros do cabedal”, mas TAMBÉM já temos centenas de milhares de condutores utilitários e de conveniência para o trânsito. Ou seja, a comunidade motociclista portuguesa é já GLOBAL, sendo hoje tão normal ver um “Sr. José” de motorizada na sua aldeia quanto ver uma qualquer “Benedita” de capacete na Quinta da Marinha.

Hoje em dia, do mais humilde cidadão até ao Chefe de Estado, graças a TODOS nós, já não há ninguém, repito, NINGUÉM, que não possa ser imaginado a beneficiar de uma moto na sua vida diária.

Quando tomei posse como deputado na Assembleia da República, era o ÚNICO a ir de moto até ao Palácio de São Bento, ganhando a alcunha de “O deputado Motard” aquando da “Lei dos Rails”. Mais tarde, veio o deputado Miguel Tiago com as “125 cc” e, mais recentemente, os deputados Miguel Santos e Gonçalo Lage com o “pacotão das inspeções, faixa bus, portagens, IUC, etc”.

Ou seja, nas últimas décadas os motociclistas portugueses ocuparam as estradas em todos os segmentos, mas ocuparam TAMBÉM o Parlamento em todas as bancadas. De “párias” passaram a ser um grupo de muito mais de seiscentos mil portugueses que são APLAUDIDOS DE PÉ no hemiciclo e espero que assim continuem.

Dir-me-ia o ‘Tó Manel’ que o “PREÇO DA NORMALIDADE” é deixarmos de ser um grupo pequeno e coeso para passarmos a ser também um “grupo enorme” de gente que sabe (e que exige) os seus direitos.

E eu responder-lhe-ia que, apesar de também ter algumas saudades do passado, vejo com muita esperança o futuro que conseguimos conquistar.

Deixaremos o motociclismo em Portugal melhor do que o recebemos… e isso é algo que nos deve encher de orgulho de TODOS NÓS.

Texto: Rodrigo Ribeiro

Crónica originalmente publicada na Revista Motojornal #1582 já nas bancas e disponível para compra online aqui .

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