Que as corridas do Mundial de Resistência FIM são incríveis, já sabemos. Ao longo dos anos tivemos vários exemplos de momentos verdadeiramente dramáticos, com vitórias decididas por poucas diferenças e títulos por 1 ponto apenas. E o Bol d’Or deste ano, a derradeira e absolutamente decisiva ronda da temporada 2025 do Mundial de Resistência FIM, foi mais um exemplo disto, e de que para vencer o título é primeiro preciso terminar a corrida.
As 24 horas deste Bol d’Or iriam decidir todos os grandes vencedores das categorias EWC, Superstock e o novo troféu de Produção.
Tudo estava em aberto, e com uma pontuação bonificada, as 53 equipas que iniciaram o fim de semana ambicionavam amealhar muitos pontos ao longo da corrida no circuito Paul Ricard de 5,6 km de extensão e com a icónica (mas temida por causa da mecânica) reta Mistral de 1,8 km e que significa que as motos vão de ‘acelerador a fundo’ durante cerca de 20 segundos!
Em ação na classe principal EWC esteve o português Pedro Nuno com o Team Bolliger Switzerland #8 com a companhia do Nico Thoni e Alex Toledo aos comandos da Kawasaki Ninja ZX10R, sendo que as cores nacionais estiveram ainda representadas na classe principal por Sheridan Morais, piloto da Motobox Kremer Racing, que dividiu esforço aos comandos da Yamaha YZF-R1 com Twan Smits e Daniel Rubin.

Nas contas do título principal deste Mundial de Resistência, a situação pontual antes do Bol d’Or deixava possibilidades de cinco equipas discutirem o campeonato nestas 24 horas no Paul Ricard.
YART (Marvin Fritz, Karel Hanika e Jason O’Halloran) e BMW Motorrad World Endurance Team (Markus Reiterberger, Sylvain Guintoli e Steven Odendaal) estavam empatadas na liderança, a Kawasaki Webike Trickstar (Roman Ramos, Mike di Meglio e Gregory Leblanc) logo atrás, tal como a Yoshimura SERT Motul (Gregg Black, Etienne Masson e Dan Linfoot) e ainda a ERC Endurance (David Checa, Ilya Mykhalchyk e Kenny Foray). Todas as cinco equipas tinham possibilidade de se sagrar novos campeões do Mundial de Resistência FIM.
Com tudo tão ‘apertado’ na classificação, qualquer ponto faria a diferença. E isso levou a que, desde a qualificação, em que também são distribuídos pontos, a batalha pelo título estivesse ao rubro!
A Yoshimura SERT Motul, com uma volta incrível, a primeira de sempre no segundo 50, mais precisamente 1m50.932s protagonizada por Etienne Masson, levou a melhor e a “pole position” deu-lhes mais pontos que aos rivais. Estava então dado o mote para uma corrida que seria renhida e com todos os pontos a contarem para a classificação final.
A corrida arrancou com os principais protagonistas a chegarem-se à frente e com batalhas muito intensas, em particular nas primeiras voltas.

A Yoshimura SERT Motul conseguiu rapidamente desenvencilhar-se da FCC TSR Honda France que ficou com o segundo lugar em pista, com a Honda #5 pilotada por Taiga Hada, Alan Techer e Corentin Perolari a servir de ‘separador’ entre candidatos ao título.
A Suzuki GSX-R1000R #1 liderava, era aquilo que podia fazer para ainda sonhar com o título, e esperava que a Honda #5 conseguisse ficar à frente da BMW Motorrad Endurance Team #37 e da YART #7. Para os campeões de 2024, a ideia era de fazer com que a Honda conseguisse roubar pontos às restantes equipas.
A discussão pelo título ficou rapidamente reduzida a quatro equipas pois a Kawasaki Webike Trickstar #11 sofreu uma queda, na sequência de óleo na pista que ficou numa queda imediatamente à sua frente, sendo que Mike di Meglio acabaria mesmo por sofrer uma lesão mais grave (fratura na perna direita) quando a sua Kawasaki Ninja ZX-10RR #11 passou por cima da perna.
A equipa oficial da Kawasaki ficou assim reduzida a apenas dois pilotos, que fizeram uma incrível recuperação de 47º até 6º lugar, sendo que esse esforço acabou por ser inglório, pois o motor da Ninja cedeu e a equipa abandonou.

Quanto ao português Pedro Nuno, e depois da Bolliger Switzerland #8 já sentir problemas na moto nos treinos e qualificações, nomeadamente alguma falta de potência, mas também dificuldades na afinação da moto para encontrar um melhor compromisso para os três pilotos, a corrida começou da pior forma, com um veio da roda traseira que se soltou e obrigou a parar na box depois de perder tempo a levar a moto para o pit lane.
Os problemas na Kawasaki #8 não se ficaram por aí. Travão traseiro, furo no radiador e consequente substituição que levou a mais uma paragem de 13 minutos, consumo de combustível mais elevado que reduziu o número de voltas por cada stint. Tudo junto fez com que a equipa do Pedro Nuno ficasse bastante atrasada na classificação e com uma missão muito complicada de recuperar posições.
Já Sheridan Morais na sua Yamaha YZF-R1, ele que sendo sul-africano corre com passaporte português e inclusive se sagrou há poucos dias campeão nacional de velocidade no Estoril, teve um início de Bol d’Or mais tranquilo e conseguiu com os outros dois pilotos colocar a Yamaha #65 nos lugares de Top 15.
De volta ao topo da classificação, as voltas foram passando e a situação esteve sempre sob controlo por parte da Yoshimura SERT Motul. Os campeões fizeram a sua corrida de forma impecável, sempre com um grande andamento por parte dos três pilotos, muito constantes, e apenas uma penalização de “stop & go” por um mecânico ter tocado na moto durante um reabastecimento quando não podia foi o erro a assinalar.

A Suzuki #1 liderou a corrida praticamente de início ao fim, à passagem das horas de bonificação (8H e 16H) estavam em primeiro, por isso somaram mais pontos do que os rivais, e foi com naturalidade que venceram este Bol d’Or.
Aliás, mesmo tendo em conta que a corrida teve dois “safety car” e a chuva decidiu aparecer, ainda que muito ao de leve, nos quinze minutos finais, a Yoshimura SERT Motul cumpriu um total de 728 voltas ao Paul Ricard, o que fica a apenas 9 voltas do recorde absoluto, que é desta equipa, que em 2024 realizou 737 voltas.
Para a Suzuki, a vitória no Bol d’Or poderia ter sido ainda mais saborosa caso a FCC TSR Honda France #5 não tivesse desistido.
Isto porque a CBR1000RR-R #5 estava num ritmo diabólico, inclusive pelas mãos de Alan Techer fez novo recorde em corrida de 1m52.506s, e ao rodar em segundo na classificação geral e da classe EWC, conseguia estar a ‘roubar’ mais pontos quer à BMW Motorrad World Endurance, quer à YART, 3º e 4º na classificação durante grande parte da corrida.
Porém, a reta Mistral voltou a ‘atacar’, e o motor da Fireblade #5 da FCC TSR Honda France acabou mesmo por ceder, deixando então a Yoshimura SERT Motul sem aquele que era o seu melhor aliado na luta pelo título do Mundial de Resistência FIM.
A partir desse momento, e pese algumas trocas de posição entre os três primeiros durante as paragens para reabastecimento, a BMW Motorrad claramente entrou em modo de gestão, preferindo manter um ritmo constante com alguma margem de segurança, e usou inclusivamente a equipa japonesa Autorace Ube Racing, uma estreante no mundial na Europa (competiram e brilharam nas 8 Horas de Suzuka), para realizar um fantástico trabalho de conjunto com as duas motos a rodarem vários stints em formação.

Ora era a M 1000 RR #37 a puxar, ora era a M 1000 RR #76 a rodar na frente da moto oficial e assim a ajudar a proteger aquela que poderia ser a nova moto campeã do Mundial de Resistência FIM. Seria também a primeira moto europeia a sagrar-se campeã. E tudo estava a correr na perfeição para isso, mas os problemas mecânicos apareceram para estragar a festa alemã no Bol d’Or.
Primeiro foi a #76 a entrar na box para abandonar quanto estava num incrível 4º lugar, e quando faltavam menos de 30 minutos para a bandeira de xadrez e a conquista do inédito título, o motor da M 1000 RR #37, quando Markus Reiterberger estava aos comandos, cedeu, não aguentou mais o esforço, e a BMW Motorrad Endurance Team viu-se obrigada a abandonar a corrida e assim entregou o título… mas não foi à Yoshimura SERT Motul!
Na verdade, a Suzuki fez tudo o que podia fazer, somou o máximo de pontos no Bol d’Or.
Porém, isso não chegou para impedir que a YART, que nunca pareceu ter ritmo para batalhar diretamente com as suas rivais e que herdou a segunda posição de forma tão dramática com o abandono da BMW Motorrad, conseguisse somar os pontos suficientes para roubar o título à Suzuki num momento verdadeiramente dramático e que ficará na história do campeonato como um dos volte-faces mais inacreditáveis de sempre.
A YART consegue voltar a sagrar-se campeã com uma diferença final de apenas 1 ponto de vantagem para a Yoshimura SERT Motul!

E, para nós portugueses, a festa do pódio em Paul Ricard teve um sabor ainda mais especial pois as cores nacionais estiveram representadas com a presença do Pedro Nuno no pódio. O Team Bolliger Switzerland #8, depois de todos os problemas que os fizeram perder muito tempo na primeira metade da corrida, terminou o Bol d’Or em crescendo, a subir na classificação.
Com muitas voltas de atraso para os primeiros, mas a rodar já no Top 10 antes da última hora de prova, a Kawasaki #8 evitou mais problemas, garantiu que cruzava a meta, e, claro, beneficiando também das desistências das equipas de topo, herdou um 3º lugar na classe EWC que a dada altura parecia impossível, mas que surge aqui neste final de temporada no Bol d’Or como excelente recompensa para a formação suíça onde milita o Pedro Nuno.
Para o português, este ano não foi isento de problemas, mas a vitória nas 24 Horas de Barcelona e agora este 3º lugar no Bol d’Or são motivos para celebrar. E em breve teremos as declarações exclusivas do Pedro à Revista Motojornal!
Quanto ao Sheridan Morais, infelizmente a Yamaha #65 foi mais uma vítima da reta Mistral, com o motor quatro cilindros da YZF-R1 a ceder numa altura em que a Motobox Kremer Racing estava bem posicionada.
Nas Superstock, onde também vimos muitos abandonos a acontecer, os campeões National Motos Honda FMA (Guillaume Raymond, Johan Nigon e Valentin Suchet) defenderam o título e voltaram a sagrar-se campeões pelo segundo ano consecutivo, enquanto na Produção a Kawasaki Ninja ZX-10R da Artec #199 foi a melhor no final do campeonato, sendo por isso a primeira equipa a vencer esta classe que se estreou esta temporada no Mundial de Resistência.
Resultados Bol d’Or
1 – Yoshimura SERT Motul – 729 voltas
2 – YART – +3 voltas
3 – Champion MRP Tecmas – +19 voltas
4 – Kaeder Dafy RAC41 Honda – +19 voltas
5 – National Motos FMA Honda – +20 voltas
6 – Team 18 Pompiers Igol CMS Motostore – +27 voltas
7 – Revo M2 – +29 voltas
8 – Team Bolliger Switzerland #8 – +35 voltas
9 – Mana Au Competition – +36 voltas
10 – Team 33 Louit April Moto – +36 voltas
Classificação Mundial Resistência (EWC)
1 – YART – 139 pontos
2 – Yoshimura SERT Motul – 138 pontos
3 – BMW Motorrad World Endurance Team – 108 pontos
4 – Kawasaki Webike Trickstar – 83 pontos
5 – ERC Endurance – 74 pontos
6 – FCC TSR Honda France – 69 pontos
7 – Team Bolliger Switzerland #8 – 67 pontos
8 – Mana Au Competition – 53 pontos
9 – Elf Marc VDS KM99 – 41 pontos
10 – Maxxess by BMRT 3D – 40 pontos
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