Depois dos pouco mais de 250 km da primeira etapa entre Vila Verde e Viseu, o Portugal de Lés-a-Lés Off-Road 2026 aumentou substancialmente a dose para o segundo dia. Foram mais de 340 quilómetros entre Viseu e Almeirim, numa etapa longa e fisicamente exigente, mas que ofereceu condições particularmente favoráveis para andar de moto.
A chuva durante a noite ajudou a reduzir o pó e deixou vários pisos com boa tração, ainda que por vezes ligeiramente escorregadios. Houve zonas técnicas, estradões mais rápidos, pedra, regos, furos e algumas quedas.
No final, junto à praça de touros de Almeirim, os rostos cansados diziam uma coisa. Os sorrisos contavam outra.
Estrangeiros já são uma parte importante do Lés-a-Lés
Entre as características mais interessantes desta 11.ª edição está a crescente presença de motociclistas estrangeiros.

Os espanhóis representam já mais de 10% dos inscritos, mas não são apenas os números que chamam a atenção. Muitos são repetentes e regressam trazendo novos amigos, criando uma espécie de promoção espontânea do evento além-fronteiras.
Um desses casos é Antonio Llanes. O espanhol descobriu o Lés-a-Lés em 2025 através de um grupo de amigos e regressou este ano disposto a completar aquilo que começou na edição anterior. E a história da sua Aprilia Tuareg 660 merece ser contada.
Um motor vindo da Suécia para poder regressar a Portugal
Segundo Antonio Llanes, na edição de 2025 conseguiu completar o percurso, mas o regresso a casa terminou da pior maneira. O motor da sua Tuareg 660, então com menos de 8.000 km, gripou praticamente à chegada a Huelva. Llanes acredita que o problema poderá ter estado relacionado com a grande quantidade de pó enfrentada durante o evento.
Segundo o próprio motociclista, a avaria não foi assumida em garantia. Para poder regressar ao Lés-a-Lés em 2026, acabou por adquirir um motor usado na Suécia, com cerca de 2.000 km, instalando-o na Aprilia.
Problema resolvido? Mais ou menos. O motor não deu preocupações durante os primeiros dois dias, mas a segunda etapa trouxe um furo que obrigou a uma longa reparação e acabou por danificar o pneu. Pouco depois, o descanso lateral partiu ao embater numa pedra.

Desistir não entrou nos planos. A intenção continua a ser chegar ao Algarve e depois regressar a Huelva. E, aos 67 anos, Llanes já assegura que quer voltar em 2027.
A explicação ajuda a perceber o crescente interesse estrangeiro pelo evento: considera cada vez mais difícil realizar tantos quilómetros consecutivos de off-road em Espanha e destaca a paisagem, a gastronomia e o acolhimento português. Só encontrou um defeito: o preço da gasolina.
De Joanesburgo até Portugal para andar de moto
Se atravessar a fronteira espanhola para participar num evento já demonstra alguma dedicação, Derek Lubbers e Sean Dunstan elevaram bastante a fasquia. Os dois primos são sul-africanos e viajaram desde Joanesburgo até Londres, onde têm negócios e parte da família.
Depois colocaram as motos numa carrinha e conduziram até Vila Verde para estar à partida. E não é a primeira vez. Conheceram o Lés-a-Lés há cerca de três anos, durante umas férias em Chaves. Ouviram falar do evento, pesquisaram sobre o conceito e decidiram experimentar.
Participaram em 2025. E gostaram suficientemente para atravessar novamente meio mundo em 2026.
“Muito, mas mesmo muito divertido”
À chegada a Almeirim, os dois sul-africanos não escondiam o entusiasmo. Consideraram a primeira etapa mais fácil do que a equivalente da edição anterior, apesar da abundância de pedra, beneficiando também de temperaturas mais agradáveis.
Mas foi a segunda jornada que verdadeiramente os conquistou. Os pisos húmidos proporcionaram boa aderência e, simultaneamente, aquela pequena dose de deslizamento que transforma a condução de uma trail fora de estrada numa experiência particularmente divertida.
A chuva da noite anterior teve ainda outro benefício: reduziu substancialmente o pó esperado nas extensas zonas de eucaliptal, sobretudo durante a primeira parte do percurso. O resultado foi uma jornada que alternou secções técnicas com troços bastante mais rápidos à medida que a caravana avançava para sul.

Ombros, braços e lombares também fizeram mais de 340 km
A chegada a Almeirim não significou apenas estacionar a moto e retirar o capacete. Uma etapa desta extensão deixa marcas físicas, sobretudo quando grande parte do dia é passada a procurar a melhor trajetória entre pedras, regos e outros obstáculos.
A equipa de osteopatas da Osteomotus voltou por isso a ter trabalho no final da jornada. As queixas concentraram-se sobretudo nos ombros, braços e zona lombar, consequência das muitas horas de esforço e da constante necessidade de controlar a roda dianteira em terreno irregular.
Porque o Lés-a-Lés Off-Road não é uma corrida, mas isso está longe de significar que seja fácil.
Das motos para as pás: 20 sobreiros plantados em Almeirim
E houve ainda tempo para continuar outra das componentes desta edição. Depois da ação realizada antes da partida em Vila Verde, a 8.ª Campanha de Sensibilização Reflorestar Portugal de Lés-a-Lés chegou também ao Ribatejo.
Alguns participantes trocaram temporariamente os guiadores pelas pás e ajudaram a plantar 20 sobreiros na Herdade dos Gagos, em Fazendas de Almeirim.

A iniciativa procura sensibilizar para a recuperação da floresta portuguesa através da utilização de espécies autóctones, num evento em que os participantes passam precisamente muitas horas em contacto direto com zonas florestais e áreas transformadas pela predominância do eucalipto. É também uma forma de tentar deixar algo no território depois da passagem das centenas de motos.
Agora faltam 375 km até Portimão
Depois de Vila Verde–Viseu e Viseu–Almeirim, falta a derradeira etapa. E será também a mais longa. Os participantes terão pela frente cerca de 375 quilómetros entre Almeirim e Portimão, começando por terrenos onde surgirão algumas secções de areia até às proximidades de Alcácer do Sal.
Mais para sul, o percurso deverá tornar-se progressivamente mais rápido através dos estradões alentejanos, antes de a serra algarvia apresentar o último desafio da 11.ª edição.
No final estará Portimão e a conclusão de mais uma travessia de Portugal por caminhos que muitos dos participantes estrangeiros dificilmente conseguem encontrar nos seus países. Talvez seja precisamente essa uma das razões para continuarem a regressar.
Portugal pode promover-se aos motociclistas estrangeiros com campanhas, vídeos e fotografias. Mas há uma alternativa bastante convincente: entregar-lhes uma moto, um percurso de Lés-a-Lés e deixar que descubram o País por si próprios. Depois de mais de 340 km entre Viseu e Almeirim, alguns já sabem a resposta: querem voltar.
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