A Moto Morini X-Cape 1200 surgiu pela primeira vez ao público, com pompa e circunstância, no Salão de Milão EICMA de 2024. Já praticamente na versão final e igual à que agora temos disponível no mercado e em venda, a nova maxitrail de marca das asas douradas, assumia-se uma opção muito interessante a vários níveis num segmento que, quer então, quer agora, está ao rubro em termos de disputa de mercado e propostas disponíveis.
Pouco mais de um ano depois, a moto chega aos concessionários da marca espalhados por toda a Europa, primeiro por iniciativa do anterior distribuidor em território português, mas agora e desde dia 1 de junho, por total responsabilidade do forte e poderoso Grupo Multimoto, que assumiu desde essa data a importação da marca para o nosso país.
A Moto Morini é uma das históricas marcas mundiais, com origem em Itália pela genialidade de Alfonso Morini que se lançou na produção de motos no longínquo 1938. Muitos modelos, muitas conquistas, outras derrotas, sobretudo bancarrotas que atiraram a marca ao fundo e levaram à troca, por mais que uma vez, de quem a detinha e comandava, até que em 2018 foi adquirida pelo enorme grupo chinês Zhongneng.
Na senda de outras marcas com historial poderoso, mas futuro nas mãos e decisões comerciais do capital e tecnologia chinesa, os novos responsáveis pela Moto Morini ainda assim estabeleceram que produção e montagem iriam ser feitas na China, mas a criação, o desenho e desenvolvimento de novos modelos iriam continuar em Itália, mantendo um padrão de exclusividade e criatividade que sempre esteve enraizado na indústria das duas rodas latina e que vale muitos pontos.

⭐Primeiro impacto – Uma maxitrail com imagem e presença
No topo da pirâmide de propostas da marca italiana – vamos continuar a assumir que a Moto Morini “é” e “será” sempre italiana – fica esta X-Cape 1200. Uma maxitrail completa e soberana em vários níveis, que entra no mercado com argumentos de distinção e com capacidade para ombrear, na estrada, com as rivais mais diretas.
A X-Cape é uma moto portentosa, grande em formato e muito vistosa. As ópticas de LED abundam pelas várias superfícies num conjunto em que se destaca claramente a frente agressiva, de desenho moderno, elegante e diferenciador entre iguais (do segmento).
Toda a secção dianteira, tão larga quanto alta, foi concebida em torno do enorme depósito de gasolina de 24,5 litros e das volumosas carenagens que surgem decoradas com os expressivos logos ou da marca ou do modelo, apostam em proteger muito e bem condutor e passageiro. Já lá vamos…
A secção traseira é também ela agressiva e elevada, das mais bonitas do segmento, comprovando logo por ali e em muitos outros pontos, que a X-Cape é uma moto com acabamentos de elevada qualidade, muitos pormenores que fazem a diferença – as entradas de ar fresco e as saídas de ar quente, soldaduras, simples parafusos – constituindo todos um conjunto de facto volumoso e imponente, facilmente distinguindo-se das restantes.
Os comandos e demais elementos de controlo da moto estão bem acabados e são funcionais, além de simples em termos de modos de uso.
O guiador largo torna a condução mais fácil, com uma postura direita e confortável incutida pelo assento colocado à altura ideal para a maioria das estaturas. A altura ao solo não complica muito, apesar de serem 840 mm (sem qualquer ajuste), muito graças ao formato bem redondo e encovado do assento na zona do condutor, que ajuda a termos conforto e controle simples da moto.
O que não é de facto desprezível é o peso do conjunto, quase 260 kg a seco que chegam a quase 285 kg com o depósito cheio, valor que não abona muito frente à concorrência, mas que sobretudo implica mais esforço nas manobras em parado e mais atenção e perícia do condutor a baixas velocidades.
A X-Cape 1200 conduz-se de modo cómodo e natural por muitos quilómetros, até porque a posição de condução beneficia muito da enorme proteção aerodinâmica garantida pelo para-brisas frontal ajustável e que de facto retira pressão da ar no capacete do condutor. Além disso é facilmente ajustável.

⚙️Equipamento – Como mandam as “regras”
O ecrã TFT de 7 polegadas é dos maiores do segmento e dos mais completos em termos de distribuição de informação e desenho. É agradável à vista e de boa leitura.
Na lista de atributos de equipamento, a X-Cape 1200 inclui uma sempre interessante câmara de vídeo frontal (só funcional nalguns mercados, por motivos de lei), sistema de navegação integrado, sistema de diagnóstico de possíveis avarias com ligação remota via app à marca e radar de ângulo morto, com aviso nos retrovisores de aproximação de outros veículos.
A eletrónica toma lugar de destaque na X-Cape 1200, como seria de esperar.
Para gerir o motor e a sua resposta, existem 3 mapas de potência, que na prática mostram reais diferenças na entrega dos cavalos e binário. Além disso, a adoção do obrigatório sistema de medição IMU de seis eixos, permite à 1200 ter 6 modos de gestão do motor, controlo de tração, ABS Bosch em curva, acelerador eletrónico, faróis de longo alcance em curva e quickshift bidirecional.

🔧 Motor – O eterno V2 da Morini
O motor da X-Cape maior é quase já caso único no segmento em que concorre. Trata-se de um V2 com cilindros com 87° de abertura e 1187 cc de capacidade. Um motor que surge nesta moto como sendo o Corsa Corta Evo, no fundo uma evolução do motor precisamente idêntico em termos de configuração e estreado em 2005 nos então modelos Corsaro de estrada.
Manteve a estrutura, mas foi revisto e muito trabalhado em termos de gestão eletrónica, alimentação e refrigeração, com vista a um desempenho adequado a esta maxitrail mas sobretudo a poder cumprir a atual norma de homologação, a Euro 5+.
É curioso que a conseguiram obter sem dúvida, mas a sonoridade que o V2 emana é estranhamente muito elevada. A princípio sente-se emotiva e até excitante – parece termos montado um escape de maior rendimento, mas não – mas com o acumular de quilómetros, torna-se cansativa e incomodativa, por ser demasiado estridente e elevada.
À parte esse facto, a resposta do V2 da Moto Morini é de facto muito particular e concordante com um clássico V2 com esta cilindrada. Temos resposta e presença inicial embora se sinta que a gestão eletrónica nos regimes mais baixos necessite de ser mais acertada, pois o motor bate e soluça mais que o esperado.
Temos resposta cedo sim, embora com estas hesitações, que depois estabilizam após as 3.000 rpm e que seguem por aí acima já sem qualquer quebra.
A caixa tem relações algo longas e por isso obriga-nos a rodar em zonas mais técnicas e de menor velocidade, numa mudança certa e mais baixa. A embraiagem de comando hidráulico é bem robusta e progressiva (além de deslizante, o que suaviza a resposta nas reduções), mas o acionamento algo “pesado”.
A subida de regime faz-se sem vibrações que incomodem, antes aquele bater típico de um V2 de grande capacidade, o que se torna agradável. Um V2 elástico e presente, embora não tão explosivo ou exuberante em altos regimes como seria de esperar e frente a outros concorrentes.
Os 129 cavalos estão lá e com a presença do quickshift a condução torna-se ainda mais excitante embora sempre a necessitar de experiência e algo mais de esforço do condutor que o expectável. Nisto tudo outro contra: os consumos são elevados e medidos nunca abaixo dos 7 litros/100 km, o que adicionado à tal sonoridade bem elevada, poderá não ser assim tão atraente para quem quer economia diária e dar pouco nas vistas…

🏍️Ciclística – A eficácia de uma maxitrail mais asfáltica
O motor liga-se ao chassis feito em tubos de aço para fazer parte integrante da estrutura ciclística da X-Cape 1200, sem ser elemento de reforço da mesma. Uma solução convencional que funciona bem e atinge os objetivos pretendidos.
Equipada com suspensões Kayaba totalmente ajustáveis e jantes de 19 e 17 polegadas, a X-Cape 1200 comporta-se como uma excelente maxitrail em pisos de asfalto, onde é possível usufruir de boa aderência e segurança em zonas rápidas e mesmo reviradas.
Apesar da condução da moto requerer atenção ao elevado peso do conjunto, com hábito conseguimos incrementar o ritmo a que se roda, assentando confiança nos pneus de recorte puramente asfáltico e na firmeza das suspensões. Ambos os conjuntos mostram ser mais secos e duros para conseguirem manter bem coladas as rodas no asfalto, e progressivamente vamos percebendo como a X-Cape curva e inclina muito – até porque é baixa na altura livre ao solo – e suficientemente ágil e divertida.
O largo guiador ajuda a fazer menor esforço na direção e a geometria do conjunto acaba por confirmar estarmos perante uma moto estável sob velocidade, mas também ágil dentro do expectável. Temos conforto no global, pois vamos bem encaixados no generoso depósito, e temos segurança mesmo em travagens mais apuradas e inclinados, com a habitual conhecida potência elevada sobretudo do disco dianteiro e respetivas pinças radiais da Brembo.
As suspensões Kayaba têm a vantagem de serem totalmente ajustáveis, mas é evidente que estão mais vocacionadas para se usarem em estrada, até porque com jantes de 19/17, pneus de asfalto e um curso de suspensão de apenas 180 mm (em ambos os eixos), poucos serão os que se atreverão a entrar por trilhos de terra em aventura… isto apesar de nos modos de condução estar incluído o “Off-road”, mas de facto esta moto não é para tal.

🎯 VEREDICTO MOTOJORNAL
É sim para rolarmos em estrada e de preferência aberta e sinuosa, com aquelas curvas de maior velocidade onde iremos confirmar a firmeza de toda a ciclística e a forma como curva bem e depressa.
Não é uma moto muito ágil, mas com hábito e experiência do condutor, consegue surpreender. Tal como o motor que confirma a cada quilómetro percorrido tratar-se de uma unidade já com uns bons anos no ativo, mas qualidades postas em dia. Precisará ainda de mais acertos na gestão eletrónica, sobretudo para tornar a resposta inicial mais dócil e mais fácil de tratar, mas este é um daqueles motores V2 com raça e comportamento próprios.
Uma maxitrail grande em muitos sentidos, feita com pormenores atentos e de qualidade, bem enquadrada no estilo italiano que sempre tornou as Moto Morini diferentes entre as da sua “espécie”.
Por fim referir o preço de venda para as três cores disponíveis, branco, vermelho ou preto. São 11.990 euros a pagar por uma moto muito completa e que de facto irá agitar a sua classe onde este valor fará muita diferença. As vendas já estão em marcha.
Texto: Rui Marcelo
Fotos: Moto Morini Portugal
Galeria de fotos Moto Morini X-Cape 1200
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