Quando se discute a segurança dos motociclistas, a velocidade aparece quase inevitavelmente no centro da conversa. Mas existe outra pergunta menos habitual: o que torna uma determinada velocidade segura?
Um projeto de investigação apresentado pelo centro sueco SAFER procura responder precisamente a essa questão aplicando aos motociclos os princípios do chamado Safe System.
Partir do princípio de que as pessoas cometem erros
O conceito Safe System assenta numa premissa essencial: seres humanos cometem erros e o sistema rodoviário deve ser concebido para impedir que esses erros provoquem morte ou ferimentos graves.
É uma diferença importante relativamente à visão que coloca praticamente toda a responsabilidade no comportamento individual. Aplicado às motos, o desafio é ainda maior. Um automóvel oferece carroçaria, zonas de deformação, airbags e cintos.

O motociclista depende sobretudo do equipamento pessoal e das características do ambiente contra o qual poderá embater.
O corpo humano passa a fazer parte da equação
O projeto Safe System Principles for Motorcycles, financiado pela Swedish Transport Administration, reúne especialistas internacionais de academia, indústria e organizações de segurança rodoviária. O objetivo é desenvolver uma estrutura científica que combine três elementos: tolerância biomecânica humana; desenho das infraestruturas; tecnologias atuais e futuras das motos.
A partir dessa combinação pretende-se determinar velocidades de circulação compatíveis com a sobrevivência e redução de lesões graves em diferentes cenários.
Uma estrada segura para automóveis pode não ser segura para motos
Aqui encontramos uma questão particularmente relevante. Uma infraestrutura pode proporcionar níveis razoáveis de proteção a ocupantes de automóveis e, simultaneamente, apresentar riscos graves para motociclistas.
Rails sem proteção inferior, postes, árvores, separadores rígidos, lancis, mobiliário urbano e obstáculos colocados junto à estrada podem transformar uma queda relativamente simples num acidente fatal.

O mesmo acontece com interseções onde a visibilidade é insuficiente ou com pavimentos incapazes de oferecer aderência consistente.
E Portugal?
É precisamente aqui que o estudo ganha interesse para o nosso país. O debate português sobre sinistralidade motociclista concentra-se frequentemente em velocidade, fiscalização e comportamento.
Todos são importantes. Mas uma abordagem Safe System obriga a acrescentar outra pergunta: até que ponto as nossas estradas estão preparadas para que um erro de um motociclista não se transforme numa morte?
Essa questão envolve rails, pavimentos, curvas, obstáculos laterais, sinalização, cruzamentos e desenho urbano.
A tecnologia também poderá aumentar a velocidade sobrevivível
Existe ainda outro lado da equação. ABS em curva, controlo de tração, radar, sistemas de aviso, iluminação adaptativa e futuras tecnologias de prevenção de acidentes podem reduzir a probabilidade de colisão.
O objetivo do projeto não é, portanto, encontrar simplesmente “um limite seguro para todas as motos”. É perceber como motociclista, moto e estrada formam um único sistema de segurança.
Pode parecer uma distinção académica. Na realidade, poderá mudar profundamente a forma como se desenham estradas e limites de velocidade no futuro.
Porque a pergunta deixará de ser apenas: “a que velocidade devemos permitir que uma moto circule?”
E passará também a ser: “o que temos de mudar nesta estrada para que um erro não custe uma vida?”

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