Sam Sunderland não é propriamente um motociclista habituado a desistir. Vencedor do Dakar em 2017 e 2022, o britânico construiu grande parte da carreira precisamente em provas onde chegar ao fim já representa uma vitória.
Mas desta vez o adversário mais difícil não foi o deserto, a fadiga ou as milhares de quilómetros que ainda tinha pela frente. Foi o relógio.
Sunderland tinha partido de Londres a 5 de setembro aos comandos de uma Triumph Tiger 1200 Rally Explorer com um objetivo extraordinário: tornar-se no motociclista mais rápido a completar uma circum-navegação do planeta, tentando superar o registo de 19 dias, 8 horas e 25 minutos estabelecido por Kevin e Julia Sanders em 2002.
Mais de 5.300 km em pouco mais de dois dias
Antes do abandono, Sunderland estava a demonstrar até que ponto levava a tentativa a sério. O britânico tinha completado 3.304 milhas, aproximadamente 5.317 km, em dois dias, sete horas e sete minutos, incluindo períodos de descanso.

Só na segunda etapa, entre Banguecoque, na Tailândia, e Kuala Lumpur, na Malásia, percorreu 948 milhas, cerca de 1.526 km, em 15 horas e 33 minutos. São números que ajudam a colocar o desafio em perspetiva.
O percurso completo previa mais de 29.000 km através de cinco continentes, com Sunderland a enfrentar jornadas que poderiam chegar às 17 horas aos comandos da moto. Depois de Londres-Istambul e da passagem pelo Sudeste Asiático, a rota prosseguiria através da Austrália, Nova Zelândia e América do Norte, antes da derradeira ligação entre Casablanca e Londres.
As travessias oceânicas eram realizadas com a moto transportada por avião, períodos durante os quais o cronómetro específico do tempo de condução ficava suspenso. As regras exigiam ainda que Sunderland viajasse sempre na mesma direção, passasse por dois pontos antípodas e completasse o percurso com a mesma moto.
Foi no Outback australiano que tudo terminou
Depois do Sudeste Asiático chegou a Austrália. E foi aí que a tentativa sofreu o golpe definitivo.
Segundo Sunderland, a moto sofreu danos durante a passagem pelo Outback australiano, originando um problema técnico que precisava de ser reparado. A equipa tentou encontrar uma solução que permitisse continuar, mas a intervenção e os testes necessários após a reparação consumiriam demasiado tempo.
Num desafio normal, parar, reparar e continuar poderia ser suficiente. Aqui não. Com um recorde de pouco mais de 19 dias para bater, a perda de tempo significava que, mesmo regressando à estrada, o objetivo já não seria alcançável. Sunderland e a equipa decidiram por isso terminar a tentativa.
O piloto admitiu estar profundamente desapontado, explicando que abandonar não foi uma decisão tomada de ânimo leve. Ainda assim, destacou também o orgulho pelo que a equipa conseguiu realizar e pela aventura vivida até à Austrália.
O recorde continua com mais de duas décadas
O registo que Sunderland procurava superar remonta a 2002, quando os britânicos Kevin e Julia Sanders completaram a volta ao mundo numa BMW R1150GS com um tempo oficial de condução de 19 dias, 8 horas e 25 minutos, percorrendo 31.319 km.
Há uma particularidade importante nesta história. O Guinness World Records encerrou posteriormente a categoria dos recordes transcontinentais de velocidade em estrada pública por razões de segurança, pelo que a marca dos Sanders permanece como a referência oficialmente registada pelo Guinness. Entretanto foram realizadas outras circum-navegações em tempos inferiores, mas sob formatos e condições diferentes.
Sunderland pretendia enfrentar a marca seguindo os requisitos históricos do desafio, incluindo utilizar a mesma moto durante toda a viagem.
A aventura que já tinha sido adiada uma vez
Esta não foi sequer a primeira contrariedade no projeto. A tentativa estava inicialmente prevista para 2025, mas Sunderland sofreu uma grave queda durante os treinos que lhe provocou uma fratura vertebral, obrigando a adiar o desafio. Recuperou, voltou à moto e finalmente arrancou de Londres em setembro de 2026.
Desta vez, o corpo aguentou. Foi a mecânica que interrompeu a viagem. Ainda não foi divulgada informação técnica suficientemente detalhada para determinar com precisão qual o componente que falhou ou a natureza exata dos danos. Sunderland limitou-se a explicar que a moto sofreu danos que deram origem ao problema técnico. Por isso, seria prematuro atribuir a causa a um componente específico da Tiger 1200.
E talvez seja precisamente esse o lado mais cruel deste tipo de recorde. No Dakar, perder algumas horas pode destruir uma classificação, mas ainda é possível chegar à meta. Numa corrida contra um recorde mundial, uma paragem prolongada pode acabar imediatamente com tudo.
Sam Sunderland conseguiu atravessar continentes, conduzir mais de 1.500 km num único dia e acumular mais de 5.300 km em pouco mais de 55 horas. Mas, desta vez, foram algumas horas parado no meio da Austrália que decidiram uma volta ao mundo.

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