Foi na temporada de 2024 que o Regulamento Técnico do Mundial Superbike (SBK) passou a utilizar um detalhe muito particular: o peso do piloto. Pilotos mais leves do que o valor referência fixado no regulamento, 80 kg, incluindo todos os equipamentos, seriam obrigados a adicionar peso na moto. Por cada quilo a menos tem de ser adicionado 0,5 kg de lastro na moto, até ao máximo de 10 kg de lastro. Uma medida que teve um claro impacto no rendimento de Alvaro Bautista.
O piloto de Talavera de la Reina, que conquistou dois títulos de Superbike consecutivos (2022 e 2023) aos comandos da Panigale V4 R da equipa oficial Aruba.it Ducati, é efetivamente um piloto bastante pequeno de estatura e muito leve.
Aos comandos de uma moto potente e tremendamente veloz, um piloto com estas características físicas tem uma natural vantagem perante pilotos mais altos e pesados, mesmo que estejam aos comandos de uma moto semelhante.
Obviamente que uma série de pilotos não ficaram satisfeitos com o domínio de Alvaro Bautista. O mais vocal nas críticas foi Scott Redding, um piloto conhecido pela sua preparação física e treinos de bicicleta, que se queixava de que não podia baixar mais o seu peso, mesmo aparentando estar já bastante ‘magro’, e por isso estava em desvantagem. Uma desvantagem que o britânico quis ver eliminada, e por isso procurou (não tendo sido o único) que a Comissão do Mundial de Superbike adotasse uma medida especial de peso do piloto para equilibrar a balança.

Alvaro Bautista era claramente o ‘alvo’ de tal medida que, como já referimos, foi aplicada a partir de 2024. O espanhol da Aruba.it Ducati passou assim a ter de adicionar 6 kg de lastro na sua Panigale V4 R, colocando, naturalmente, desafios de pilotagem diferentes a partir desse momento.
Agora que já passou mais de um ano e meio desde a introdução da regra do peso do piloto, e numa altura em que tem o seu futuro em aberto ao não permanecer na Aruba.it Ducati por vontade da equipa que procura ‘sangue novo’, Alvaro Bautista decidiu passar ao ataque.
Criticando a penalização do peso e o Regulamento Técnico atualmente usado no Mundial Superbike, através de um comunicado que tem gerado muitas reações nas redes sociais, nomeadamente de pilotos de vários campeonatos que surgem a demonstrar o seu apoio a esta ideia defendida por Bautista.
Para o veterano piloto espanhol, este regulamento é extremamente discriminatório, não contempla as diferenças naturais do corpo dos pilotos tornando-se injusto, e a sua decisão de falar agora, diz, tem como objetivo evitar que no futuro outros pilotos sejam prejudicados como ele sente que está a ser.
Aqui fica o comunicado de Alvaro Bautista na íntegra
“Hoje quero escrever sobre algo que não é fácil para mim, mas que acredito que é extremamente necessário.
Hoje, não falo apenas como piloto, mas como pessoa. Como alguém que dedicou toda a sua vida a este desporto, que treinou todos os dias com compromisso, disciplina, e amor pelas motos. Também falo como alguém que sentiu pessoalmente o que é ser julgado – e, de certa forma, penalizado – não pela performance ou nível de dedicação, mas pelo seu corpo. Pelo seu peso.
Durante muito tempo permaneci em silêncio. Tentei adaptar-me, para não causar desconforto e para tentar convencer-me que isto faz parte do jogo. Mas a verdade é, quando as tuas dimensões físicas se tornam numa desvantagem – algo que nada diz da tua habilidade como piloto – então deixa de ser um assunto técnico e passa a ser uma forma de discriminação.
Senti como estava a ser mais escrutinado, como tenho sido obrigado a justificar porque pertenço. Não porque sou capaz de estar à frente ou render ao mais alto nível, mas porque o meu corpo não corresponde ao standard físico que – embora não esteja escrito – todos sabemos que existe.
Eu entendo que o peso é um fator técnico na performance da moto. Aceito isso. Mas quando o sistema falha em não levar em linha de conta as diferenças naturais entre os tipos de corpo, deixa de ser justo e começa a excluir.
É por isso que estou a escrever hoje. Não para me fazer passar por vítima. Não para criar divisão. Escrevo porque não quero que outros pilotos – agora ou no futuro – tenham de passar por aquilo que eu passei no último par de anos. Não quero que eles sintam que o seu tipo de corpo é um obstáculo mais difícil que qualquer curva numa pista.
O meu objetivo com esta mensagem é de iniciar a conversa necessária. Para pedir que se repensem os critérios técnicos, regulamentos, e acima de tudo, a cultura do motociclismo. Os pilotos não são definidos por um número numa balança. São definidos pela sua inteligência na pista, o seu instinto, a sua coragem, e a conexão com a moto.
Obrigado por ouvirem. Não estou a pedir aplausos. Apenas que estejam atentos. E, espero, uma mudança que torne este desporto mais justo para todos”.
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