Depois de, no ano passado, termos estado por três vezes no seio da equipa da BMW Motorrad no Mundial de Superbikes — duas em Portugal e uma em Itália, onde tivemos inclusivamente a oportunidade de rodar com a moto de Toprak Razgatlıoğlu —, era grande a curiosidade em perceber como reagiria a estrutura às mudanças desta temporada, principalmente com a chegada de Miguel Oliveira.
A nova época trouxe uma autêntica revolução: saíram Toprak Razgatlıoğlu e Michael van der Mark, entraram Miguel Oliveira e Danilo Petrucci. Também a equipa técnica sofreu ajustes, particularmente no lado da box que agora acompanha o piloto português.
Com a passagem do campeonato pelo Autódromo Internacional do Algarve, surgiu a oportunidade de regressar ao ambiente da ROKiT BMW Motorrad WorldSBK, uma equipa aberta, acessível e que sabe receber como poucas no paddock.
Ao longo de três dias intensos, houve tempo para voltar a sentir a energia única de Portimão, significativamente ampliada este ano com a presença de Miguel Oliveira e para conversas breves, mas reveladoras, com alguns dos protagonistas desta nova fase da BMW Motorrad.

Um ambiente que faz a diferença
Há ambientes de corrida que se percebem logo ao entrar na box, e o da BMW Motorrad é um deles. A harmonia entre os diferentes elementos da equipa é evidente, dos engenheiros aos mecânicos, passando pela estrutura de apoio no hospitality.
Com elementos de 11 nacionalidades, a diversidade cultural traduz-se num espírito de equipa coeso e natural. Entre eles está o português Vítor Neves, mecânico de Toprak Razgatlıoğlu na época passada e atualmente a trabalhar a moto de Miguel Oliveira, é um dos exemplos da forma como diferentes culturas se integram num objetivo comum.
É neste contexto que Miguel Oliveira chega à equipa, um ambiente que valoriza tanto o desempenho como o equilíbrio humano, e que poderá ser determinante na sua adaptação ao campeonato.

Chris Gonschor: gerir mudança e manter o foco
Chris Gonschor, diretor técnico da BMW Motorrad Motorsport, não esconde que este é um ano particularmente exigente para a estrutura alemã:
“Há muitas mudanças dentro da equipa. Temos um novo piloto a adaptar-se ao campeonato e aos pneus, um novo crew chief, um novo técnico de eletrónica… há muitos temas novos em desenvolvimento este ano”, explica.
Mais do que a componente técnica, há também um trabalho essencial na forma como a informação é transmitida e interpretada: “Estamos sempre a aprender, a moto, os pilotos, e até a linguagem dos pilotos”.
Mesmo falando todos inglês, a forma como cada piloto descreve o comportamento da moto pode variar significativamente: “Uma palavra como ‘tração’ pode significar coisas diferentes. Para um piloto é eletrónica, para outro é aderência mecânica”. Perceber estas nuances é fundamental para transformar feedback em evolução.

Mais informação, mais evolução
A chegada de Miguel Oliveira e Danilo Petrucci trouxe novas perspetivas à equipa, algo que Gonschor vê como uma vantagem clara: “No fundo, é informação que absorvemos e tentamos integrar da melhor forma”.
Sobre Petrucci, destaca a sua versatilidade: “O Danilo provou que se adapta a qualquer campeonato e a qualquer moto. É impressionante”.
E, no conjunto, a diversidade de experiências só reforça a capacidade de evolução da equipa: “Cada piloto tem uma abordagem diferente, mas isso significa mais feedback, mais aprendizagem”.

Equilíbrio dentro da box
Apesar das diferenças de percurso, a gestão dos dois pilotos não tem sido problemática. Pelo contrário, os dados mostram um equilíbrio notável: “Na qualificação, os dois pilotos fizeram exatamente o mesmo tempo ao milésimo”.
As diferenças existem, mas diluem-se ao longo da volta: “Um pode ser mais forte numa curva, outro noutra, mas no final tudo se equilibra”.
No essencial, o objetivo é comum: “Todos querem travar mais tarde e sair mais rápido. O trabalho é sempre o mesmo”.

M 1000 RR – Uma moto em constante evolução
Num campeonato tão competitivo como o Mundial Superbike, a evolução é obrigatória: “Se a moto fosse igual à do ano passado, seria um campeonato fácil e não é”.
O trabalho é contínuo e transversal a toda a estrutura: “Temos de trabalhar todos os dias em todos os detalhes. Caso contrário, damos um passo atrás”.
Os resultados já começam a surgir: “Os pilotos foram mais rápidos do que no ano passado”.

Miguel Oliveira: adaptação a um novo mundo
Para Miguel Oliveira, a mudança do MotoGP para o Mundial Superbike implica uma adaptação profunda: “Vim para uma moto que faz tudo pior relativamente às motos de MotoGP: anda menos, trava menos, curva menos”.
As diferenças são evidentes, especialmente ao nível dos pneus e das sensações: “Fazer 1.38,4 não é fácil, comparando com a MotoGP”.
Ainda assim, a margem de trabalho é grande, sobretudo na eletrónica: “Podes mudar absolutamente tudo”.
A abordagem do piloto português é pragmática: “Chego como uma página em branco”. O objetivo passa por compreender primeiro a base da moto antes de a adaptar ao seu estilo.
Em pista, identifica pontos fortes claros: “Conseguimos parar a moto muito, muito bem em curva”.
Mas também limitações, especialmente em zonas rápidas: “A moto não vira tão bem e aí perde-se tempo”.
Apesar das dificuldades, mantém o foco no essencial: “Qualquer piloto que esteja só a pensar no resultado… não está a retirar prazer da condução. Aqui eu estou a conseguir divertir-me”.

Danilo Petrucci: experiência e espírito de equipa
Do outro lado da box, Danilo Petrucci traz experiência e uma abordagem muito centrada no coletivo: “O meu objetivo era estar nesta equipa”.
Mais do que os resultados, foi o ambiente humano que o conquistou: “Encontrei pessoas de quem gostava muito. Percebi que podia haver aqui um grupo forte”.
Para o italiano, o motociclismo continua a ser um desporto de equipa: “É como no futebol. Sem a equipa, não consegues marcar golos”.
Sobre Miguel Oliveira, deixa elogios claros: “É um grande piloto e uma grande pessoa”.
E reconhece que ambos ainda estão numa fase de descoberta: “Estamos os dois a descobrir a moto”.
As diferenças existem, mas são encaradas com naturalidade: “Ele é mais leve, talvez mais rápido em reta. Eu tenho de usar os meus pontos fortes”.

Uma nova fase com ambição intacta
A BMW Motorrad entra assim numa nova fase no Mundial Superbike, marcada por mudanças profundas, mas também por uma base sólida construída nos últimos anos.
Com dois pilotos experientes, uma estrutura técnica em evolução e um ambiente interno forte, a ROKiT BMW Motorrad WorldSBK parece reunir as condições para continuar a crescer.
Resta agora perceber até onde pode chegar este novo capítulo, numa temporada onde, como ficou claro ao longo do fim de semana em Portimão, ninguém pode parar de evoluir.
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