Para além do grande final de temporada de MotoGP que acontece este fim de semana, o circuito Ricardo Tormo, e mais precisamente o seu kartódromo, foi cenário da final mundial do MotoMini FIM World Series.
Este é o evento que reúne no mesmo circuito e ao mesmo tempo as dezenas de jovens talentos que competem a nível nacional nas suas séries FIM World Series, como a que acontece em Portugal.
O MotoMini FIM World Series é, se assim podemos definir, como um ‘exame final’ para que jovens de todo o Mundo mostrem as suas qualidades em cima de uma moto, em igualdades de circunstâncias, podendo depois abrir portas nos maiores e melhores campeonatos de motociclismo, como é o caso do MotoGP.
Assim, disputaram-se nos últimos dias, em Valência, as finais mundiais de MotoMini, nova designação da competição até aqui conhecida como MiniGP, com Portugal a estar presente com dois pilotos na classe 160 cc: Tiago Tomé e Tomás Santos.
Estes conseguiram o ‘bilhete’ para a final em Valência, pois foram os dois primeiros colocados da série nacional de MiniGP em 2025, tendo no kartódromo do circuito Ricardo Tormo enfrentado mais de quatro dezenas de pilotos presentes na classe de 160.
Entre o grupo que apoiou os nossos pilotos nesta final esteve o Paulo Vicente, responsável pela Comissão de Velocidade da Federação de Motociclismo de Portugal, que, como é seu hábito desde os tempos em que tinha a seu cargo a organização dos troféus Tuono Cup, Z Cup ou S 1000 R Cup, partilhou connosco uma descrição muito detalhada do que se passou nos três dias de ação em pista.

Crónica da final do MotoMini FIM World Series
Na terça-feira, primeiro dos três dias de prova, o desafio era tentar superar pelo menos 24 dos 44 pilotos presentes na sua classe, pois só assim estaria assegurada a presença nas corridas de quinta-feira.
Para tal, havia quatro oportunidades sob a forma de outras tantas sessões de treinos livres, três sessões na terça-feira, duas de manhã e uma à tarde, mais uma na quarta-feira de manhã, o que dava perfeitamente para evoluir numa pista desconhecida para todos, pois o traçado valenciano, que replica o da pista de MotoGP no circuito Ricardo Tormo, onde está inserido, é exclusivamente utilizado para este evento, estando encerrado a qualquer outra atividade durante todo o ano.
Com o Tiago Tomé #44 no grupo A (15 pilotos com idades entre os 10 anos, como o Tiago, e os 13 anos) e o Tomás Santos #45 no grupo C (14 pilotos com idades entre os 10 e os 14 anos – o Tomás tem 11 anos), foi o Tiago a ir para a pista primeiro com a típica meteorologia de Valência (tempo seco, frio, mas soalheiro, com grandes amplitudes de temperatura, de 7ºC a 20ºC).
Treino Livre 1
Tiago Tomé começou com a pista gelada e, infelizmente, menos bem devido a um desacerto mecânico da sua moto (carburação deficiente) que condicionou imediatamente o desempenho, mas que permitiu, ainda assim, ao piloto fazer os 15 minutos da sessão e ser 12º com o tempo de 46,866s a 1,7s do melhor, o australiano Austin Attard.
O piloto estava desconsolado, mas a moto foi imediatamente levada pelo seu mecânico e pai, Ricardo Tomé, aos mecânicos oficiais da Ohvale presentes no circuito e reparada a tempo para o Treino Livre 2.
Tomás Santos entrou cerca de uma hora depois, com o asfalto ainda muito frio, mas já a melhorar, e mostra ao que vem ao conseguir um excelente 4º tempo, com a marca de 45,921s e somente a 0,6s do melhor, o italiano Mattia Gabrielli. O piloto estava animado e com a sensação de que podia fazer ainda melhor.
No combinado dos grupos, Tomás Santos fica em 19º, dentro do objetivo, e Tiago Tomé em 34º, condicionado por uma moto deficiente.

Treino Livre 2
Com a pista a melhorar substancialmente, Tiago Tomé, já com a moto ‘a funcionar’, sai para a sessão com ‘a faca nos dentes’ e consegue um muito bom 6º lugar, melhorando substancialmente o seu tempo, agora de 45,232s e a 0,9s do melhor, agora o polaco Jan Babiarz.
Tomás Santos entra na sessão do meio-dia, já com muita gente de t-shirt no Paddock, e consegue um muito bom 5º tempo, com o 45,703s a somente 0,9s do melhor, o polaco Witold Kupczynski.
No combinado dos grupos, Tiago Tomé sobe a 15º e fica dentro do objetivo, com Tomás Santos a descer a 25º depois de sobreviver ao que podia ter sido o fim da sua participação.
Treino Livre 3
Decididas as táticas, Tiago Tomé consegue um muito bom 5º tempo com 45,036s, agora a 0,4s do melhor, o espanhol Javier Vigueras, o primeiro a baixar da barreira do segundo 45.
Tomás Santos tem o susto do dia ao conseguir escapar à queda do piloto que ia na sua frente quando seguia na sua roda e se preparava para aproveitar o cone de ar; o adversário cai na sua frente, obrigando-o a saltar por cima da moto do outro piloto e conseguindo não cair – numa réplica do que fez Jakub Kornfeil em 2018 no GP de França, quando teve de saltar por cima da moto de Enea Bastianini.
Mesmo assim, Tomás Santos melhora também o seu tempo e repete o 5º tempo, com a marca de 45,538s. No combinado dos grupos, Tiago Tomé sobe ao 11º lugar e fica dentro do objetivo, com Tomás Santos a subir para a 21º posição.

Treino Livre 4 + Qualificações e Corridas de Qualificação
Tiago Tomé começa o dia outra vez com a pista ‘gelada’ e novamente com pneus novos. Consegue ser 8º, apesar de conseguir baixar o seu tempo e chegar ao segundo 44, ao registar 44,616s, ficando a 0,7s do melhor, o polaco Jan Babiarz.
Tomás Santos, cerca de uma hora depois e também com pneus novos, depois de algumas voltas anuladas por exceder os limites da pista – o que mostra que usava a pista toda e mais qualquer coisa… – consegue baixar o seu tempo, mas fica à porta do segundo 44, ao registar 45,199s e a 1,1s do mais rápido.
O combinado das sessões TL1, 2, 3 e 4 determinava quem fazia a Qualificação 1 (os últimos 18 – do 44º ao 26º) e quem passava diretamente para a Qualificação 3 (os 12 melhores), com estes já a decidir a posição na grelha para as corridas, passando os restantes pela Qualificação 2.
Tiago Tomé fica em 16º e é assim apurado diretamente para a Q2, enquanto Tomás Santos, ao ficar em 28º, vê-se obrigado a lutar na Q1 para ser o melhor de quatro para subir à Q2, o que consegue ao ser 2º tempo de 45,082s.
Tínhamos assim os dois jovens pilotos portugueses na Q2 a decidir a passagem para a Q3 (os quatro melhores), apesar do objetivo ser fazer parte dos oito primeiros, pois estes garantem o seu lugar nas corridas. Na confusão que se instalou no pit lane, os portugueses não conseguem organizar-se para trabalhar em conjunto e, infelizmente, saem separados.
Na Q2, Tiago Tomé consegue o objetivo. Ao ser 6º com o tempo de 44,780s, alcança o objetivo de estar nas corridas e evitar as corridas de qualificação, apesar de não subir à Q3 para discutir a posição na grelha de partida para a corrida do Campeonato.
Tomás Santos, ao ficar em 15º, vê-se obrigado a entrar na Corrida de Qualificação 1, de onde os dois primeiros ascendem à Corrida nas duas das três últimas posições da grelha de partida das Corridas do campeonato.
Num excelente esforço de conjunto, a equipa de Tiago Tomé junta-se então ao grupo de apoio a Tomás Santos que, com pneus novos, acreditava ser capaz de estar nos quatro primeiros.
Saindo de 7º e depois de uma boa partida, quando já ia em 4º, caiu conjuntamente com o piloto inglês Max Robinson logo na primeira volta, terminando aí a Corrida de Qualificação 1, para grande aflição e tristeza de todos. Felizmente, o Tomás saiu ileso, mas completamente triste e dececionado com o que se passou, e por se ter perdido assim a oportunidade de ser um dos quatro melhores e, muito provavelmente, um dos dois melhores, pois tal estava claramente ao alcance do piloto.
A equipa refaz-se e, sempre com a ajuda da equipa do Tiago, prepara-se para ir ganhar a Corrida de Qualificação 2, a última oportunidade para aceder às Corridas.
Nesta segunda corrida de Qualificação, Tomás saiu agora de 5º, arrancou muito bem, andando em grande luta no pelotão da frente, mas viria a terminar em 4º lugar, tendo a corrida sido ganha por Cheung Yan Kit, de Hong Kong.
Tomás falhou assim o apuramento para as Corridas do dia seguinte, apesar de uma excelente prestação que deixou um sabor amargo, pois estava claro que tinha andamento para estar nas Corridas do Campeonato.
Estando o Tomás fora das Corridas, os portugueses centraram as suas atenções no apoio ao Tiago Tomé, discutindo em conjunto táticas e estratégias para bater os 23 apurados, dos quais somente 6 tinham 10 anos de idade, entre os quais o Tiago Tomé.

Corridas
Para o dia de corridas, agora só com a presença de Tiago Tomé na 18ª posição da grelha de partida, conseguida no apuramento direto da Q2, o objetivo era claro: terminar o mais à frente possível e, de preferência, acima da posição de saída.
O programa previa duas corridas mais a Superfinal, aquela que atribuiu o título de Campeão de MotoMini 160 cc. Em cada uma das duas primeiras corridas, os pontos seriam atribuídos pelo método habitual (25 pontos para o primeiro até 1 ponto para o 15º), sendo a grelha de partida da Superfinal decidida em função dos pontos conseguidos nas duas corridas anteriores, ficando a 16ª posição da grelha e as seguintes decididas em função dos tempos efetuados.
Na Corrida 1, Tiago sai da 18ª posição e faz um bom arranque, mas, na confusão das primeiras voltas, desce para 21º, conseguindo recuperar depois até ao 16º lugar, ou seja, conseguindo assim melhorar em duas posições a sua posição de partida e ficando à beira dos primeiros pontos, na corrida ganha pelo polaco Witold Kupczynski.
Na Corrida 2, Tiago voltou a sair bem, mas perdeu uma posição que nunca mais viria a conseguir recuperar, terminando em 19º nesta corrida ganha por outro jovem piloto polaco, Jan Babiarz.
Na SuperFinal, Tiago saiu de 21º na grelha e conseguiu subir até ao 18º posto final, numa corrida ganha novamente por Witold Kupczynski, consagrando-se assim como Campeão da MiniMoto 160 cc 2025, seguido pelo italiano Daniel Putortí e pelo espanhol Javier Vigueras.
Terminadas as corridas das 160 cc, foi tempo de tempo de fazer as sessões de media com os embaixadores de cada país e, assim, houve oportunidade de conviver com o Miguel Oliveira na sua despedida do paddock do MotoGP, bem como com as outras estrelas, proporcionando momentos únicos com estes pilotos que são referência para todos os jovens que participaram nesta final.
Destaque ainda para o facto de o campeão de MotoMini 190 cc, o chinês Eddie Shengbo Sun, ter iniciado a sua carreira na Mini Velocidade em Portugal, o que demonstra que por cá também se podem desenvolver campeões.

A título de resumo, confessa Paulo Vicente, que acompanhou de perto todos os esforços e atribulações dos portugueses Tiago Tomé e Tomás Santos nesta final do MotoMini FIM World Series, “Foram dias intensos, marcados pelo espírito de equipa que se foi construindo ao longo do tempo, que deixou excelentes memórias a todos e muita vontade de estar presente na edição do próximo ano com justificadas maiores ambições”.
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