Durante décadas, a expansão de um fabricante de motos para um novo mercado seguia uma fórmula relativamente previsível: encontrar distribuidor, criar concessionários, importar ou fabricar motos e vender. A Yamaha está agora a experimentar outra abordagem em África.
A empresa japonesa aderiu ao Africa Corporate Innovation Program (ACIP), iniciativa desenvolvida pela Double Feather Partners em parceria com a Shell Foundation, e pretende trabalhar diretamente com startups africanas na criação e teste de novos serviços de mobilidade.
Três áreas prioritárias
Os projetos-piloto deverão concentrar-se em três grandes áreas: mobilidade elétrica; financiamento de mobilidade; operação de ecossistemas de mobilidade.
A diferença é importante. A Yamaha não está simplesmente à procura de novas formas de vender motos. Está a estudar como as pessoas poderão aceder, pagar e utilizar mobilidade em mercados onde possuir um veículo através do modelo tradicional nem sempre é a solução mais eficiente.

Porque África?
O continente africano apresenta algumas das condições mais interessantes do mundo para experimentar novos modelos. Em muitas regiões, motos e triciclos são ferramentas de trabalho essenciais.
Moto-táxis transportam milhões de pessoas diariamente e um veículo pode representar diretamente a fonte de rendimento de uma família.
Ao mesmo tempo, acesso a crédito, infraestrutura de carregamento e custo inicial representam obstáculos enormes. Isso obriga a encontrar soluções diferentes das utilizadas na Europa.
Comprar a moto pode deixar de ser o centro do negócio
Financiamento por utilização, leasing, troca de baterias, veículos partilhados, frotas profissionais ou serviços digitais podem tornar-se tão importantes como o produto. Para uma empresa como a Yamaha, isso cria uma mudança profunda.
O cliente deixa de ser necessariamente alguém que entra num concessionário e compra uma moto. Pode passar a ser um condutor profissional que paga diariamente pela utilização de um veículo, uma empresa que gere centenas de unidades ou um operador que combina motos, baterias e serviços digitais.

Testar primeiro, escalar depois
O programa prevê projetos de Proof of Concept em mercados selecionados da África Oriental. A Yamaha e os parceiros locais irão testar viabilidade comercial, operacional, modelos de parceria e impacto social antes de decidir se determinadas soluções podem ganhar escala.
É uma abordagem bastante diferente de impor ao mercado uma solução desenvolvida no Japão. Primeiro compreender o problema local, depois testar e só então construir o negócio.
Uma corrida que já começou
A Yamaha não está a entrar num território vazio. Startups africanas, empresas indianas, fabricantes chineses e fornecedores de baterias estão a desenvolver rapidamente soluções para motos elétricas, battery swapping e financiamento.
O Quénia, por exemplo, está a transformar-se num laboratório particularmente importante para motos elétricas utilizadas profissionalmente.
Para as grandes fabricantes japonesas existe, portanto, uma questão estratégica: participar na criação desses novos ecossistemas ou arriscar chegar quando outros já controlam a relação com o cliente.
A Yamaha escolheu participar. E talvez a parte mais interessante seja precisamente esta: o futuro de uma das maiores fabricantes mundiais de motociclos pode passar não apenas por descobrir que moto deve construir, mas por compreender como o cliente do futuro vai pagar e utilizar essa moto.

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