Texto: Vitor Martins; Fotos: Husqvarna.
Estilo Próprio
A Husqvarna é uma das mais antigas marcas de motos, tendo começado em 1903. Para além de motos de estrada, a marca sueca dedicou-se também à competição, tendo competido nos grandes prémios desde os anos 1930. Nos anos 1960 dominavam as provas de motocross com os seus eficazes e leves motores a dois tempos. Mais tarde, a empresa iria concentrar-se no motocross e enduro e que se tornaram na sua imagem de marca.
Em 1987 foi vendida ao então Grupo Cagiva de Claudio Castiglioni, que na altura já detinha também a Ducati e a Moto Morini. A produção da gama, composta essencialmente por modelos de enduro e motocross passou para Varese. Parte da equipa técnica da marca deixou a empresa e criou a Husaberg. A Husqvarna seria depois adquirida pela BMW em 2007, mantendo a produção em Itália, e a empresa alemã tinha nos seus planos diversificar a gama da marca de origem sueca, e nasceu a Nuda 900, usando o motor bicilíndrico da F800. Porém a BMW mudou de ideias e vendeu a Husqvarna, que foi adquirida pela Pierer Industrie AG, de Stefan Pierer, patrão da KTM, em 2013, passando um ano depois os direitos da marca para a KTM AG.
Começou então uma nova era para a Husqvarna. Logo em 2014, no EICMA em Milão, ficou patente a vontade de alargar o âmbito da marca para lá do enduro e motocross com a apresentação dos primeiros protótipos da Svartpilen e Vitpilen. No ano seguinte surgiram as Supermoto 701 e Enduro 701 e começavam a aparecer as versões definitivas dos protótipos de 2014, que hoje consistem numa gama de 4 motos: a Vitpilen 701, Vitpilen 401 e as Svartpilen 701 e Svartpilen 401.

Filosofia simplista
A Husqvarna escolheu a cidade de Lisboa para a apresentação mundial da Svartpilen 701, e percorrer as ruas da cidade e depois sair em direcção a Sintra pela marginal e rodar nas estradas da serra mostraram uma aposta acertada da marca sueca, que já foi italiana e agora é austríaca. O objectivo foi fazer uma moto apelativa mas simples, sem floreados, compacta e ágil e emocionante de conduzir.
A inspiração estética veio do flat track, realçada pela placa do número colocada apenas do lado direito – o lado mais visível nas ovais desta competição. Apesar de o peculiar formato do depósito ser semelhante ao da Svartpilen 401 (que experimentámos na Motojornal n.º 1445) há diferenças para o modelo mais pequeno, na traseira e também na dianteira, apesar da utilização, também de um farol redondo, em cima do qual o painel de instrumentos – também redondo, está colocado numa posição mais vertical.
A Svartpilen usa o já conhecido motor monocilíndrico de 693 cc com 4 válvulas e uma árvore de cames à cabeça, com 75 cavalos de potência máxima. Apesar da filosofia simplista, este é um motor moderno, com ride-by-wire, caixa de seis velocidades com quick shift, denominado Easy Shift, embraiagem deslizante (APTC – Adler Power Torque Control) e controlo de tracção. O quadro é, inevitavelmente, uma treliça em tubos de aço cromo-molibdénio, com forquilha telescópica invertida WP Apex na frente mono-amortecedor WP com sistema progressivo na traseira. Quando subimos a bordo percebemos logo como o assento é rijo – e pouco espesso –, mas os responsáveis da marca dizem estar a trabalhar numa versão mais confortável, que deverá ser um opcional. O tronco fica praticamente na vertical, e os pés ficam ligeiramente recuados, com as mãos a pousarem naturalmente no guiador.

Eficácia em estado puro
A Svartpilen representa o regresso à essência, num conceito moderno de duas rodas, motor, assento e guiador. Mas apesar do minimalismo, a sua eficácia leva-nos a desfrutar a condução no seu estado mais puro. Os monocilíndricos parecem ter passado de moda, mas este mostra o melhor que este tipo de motores tem para oferecer. Para trás ficam o soluços e solavancos a baixos regimes e as hesitações nas retomadas. Ao rodar do punho a resposta é limpa, suave e vigorosa, e a aceleração rápida.
A caixa de velocidades ajuda a explorar as prestações do propulsor, com engrenagens precisas e rápidas graças a um dos melhores quick shifts que já experimentámos: funciona perfeitamente a qualquer regime do motor, para cima e para baixo, em qualquer mudança; podemos, quase a parar, reduzir até primeira, sem espinhas, e usar a embraiagem apenas para deixar o motor em funcionamento depois de parar. Depois é só arrancar e não voltar a usar a embraiagem até parar outra vez. Numa condução em ritmo mais desportivo as passagens de caixa são limpas e rápidas, e mesmo nas reduções mais ‘brutas’, a embraiagem encarrega-se de impedir o bloqueamento ou o saltitar da roda traseira. Um mimo.
Ao contrário da 401, que tem ambas as jantes de 17 polegadas, a Svartpilen 701 tem rodas de 17 polegadas atrás e de 18 à frente, ambas calçadas com pneus Pirelli MT 60 RS, com desenho misto on/off road, e com bom comportamento em estrada para explorar o potencial da Svartpilen. A roda de maior diâmetro à frente parece não comprometer a agilidade, e é precisamente em estradas sinuosas com muitas mudanças de direcção que mais desfrutamos da Svartpilen. Com cerca de 160 kg e 1436 mm de distância entre eixos, a Svartpilen muda de direcção num piscar de olhos, e o disco de 320 mm à frente proporciona a potência de travagem necessária para as prestações da máquina sueca… aliás, italiana, ou melhor, austríaca.
As suspensões WP de Ø43 mm tem as funções divididas por cada uma das bainhas, e recuperação e compressão são facilmente reguláveis atrás dos pequenos manípulos no topo de cada uma delas; o amortecedor traseiro é também totalmente ajustável, mas as configurações de origem estavam perfeitas. Para além de ser muito divertida numa estrada de montanha, a Svartpilen está também muito à vontade em ambiente urbano. Dimensões compactas, baixo peso, agilidade, um motor suave e uma embraiagem que parece manteiga torna a missão no meio do trânsito uma verdadeira brincadeira de crianças.

Quase perfeita
Defeitos? Aparentemente, nenhum, a não ser… o preço. Mais de 11 000 € por uma monocilíndrica não é um valor muito apelativo, mas na verdade a Svartpilen está numa categoria sem rivais, quer no estilo, quer no tipo de motor usado. E se quisermos ser picuinhas, a parte de trás do painel de instrumentos é um pouco mal-amanhada tendo em conta o design cuidado de toda a moto…

Ficha Técnica
| HUSQVARNA SVARTPILEN 701 | |
| PREÇO | 11 441 € |
| MOTOR | Um cilindro, 4T, refrigeração por líquido |
| DISTRIBUIÇÃO | Uma árvores de cames à cabeça, 4 válvulas |
| DIÂMETRO X CURSO | 105 x 80 mm |
| CILINDRADA | 692,7 cc |
| POTÊNCIA MÁXIMA | 75 cv / 8500 rpm |
| BINÁRIO MÁXIMO | 72 Nm/ 6750 rpm |
| EMBRAIAGEM | Multidisco em banho de óleo, APTC deslizante |
| CAIXA | Seis velocidades |
| FINAL | Por corrente |
| QUADRO | Treliça em cromo-molibdénio |
| SUSPENSÃO DIANTEIRA | Forquilha telescópica WP, Ø43 mm, curso 150 mm |
| SUSPENSÃO TRASEIRA | Sistema mono-amortecedor de acção progressiva, curso 150 mm |
| TRAVÃO DIANTEIRO | Disco de Ø320 mm, pinça Brembo de 4 êmbolos de montagem radial |
| TRAVÃO TRASEIRO | Disco de Ø240 mm, pinça de um êmbolo |
| PNEU DIANTEIRO | 110/80R18 |
| PNEU TRASEIRO | 160/60R17 |
| COMPRIMENTO MÁXIMO | n.d. |
| LARGURA MÁXIMA | n.d. |
| ALTURA DO ASSENTO | 835 mm |
| DISTÂNCIA ENTRE EIXOS | 1436 mm |
| GEOMETRIA DE DIRECÇÃO | n.d./119 mm |
| CAPACIDADE DO DEPÓSITO | 12 litros |
| PESO (SEM COMBUSTÍVEL) | 158,5 kg |
| CORES | cinza |
| GARANTIA | 2 anos |
| IMPORTADOR | Jetmar |