Texto Domingos Janeiro • Fotos Marcas/FIM
Os primórdios do enduro
É mais fácil assumir que o Enduro nasceu com a primeira edição dos ISDE em 1913. Mas na verdade, isso não corresponde totalmente à verdade. Nos primórdios da competição nas motos, as diversas disciplinas cruzavam-se entre si e praticamente não existiam diferenças. Não havia circuitos frechados de asfalto e quanto muito, havia estradas de terra batida que começaram a desafiar as motos e pilotos, para as primeiras corridas.
A tecnologia evoluiu muito nos últimos anos. Actualmente, nas corridas do Campeonato do Mundo de Enduro, tanto os pilotos profissionais como os amadores, continuam a colocar à prova as motos que nasceram no início do século XX, as netas dessas primeiras motos.

Do início aos dias de hoje
Tal como nas primeiras bicicletas, as jantes dianteiras sempre se mantiveram maiores em relação às traseiras. Eram utilizados motores de dois cilindros a 4T, que permitiam atingir velocidades na ordem dos 45 km/h. Foi assim que Hildebrand & Wolfmüller, responsáveis pelo registo da patente 18553 de 20 de Janeiro de 1894, deram início a uma revolução. Construíram a primeira moto do mundo e nesse mesmo ano, foi organizada a prova Paris- Rouen, a primeira prova motorizada de sempre, com a participação de carros e motos. De cidade para cidade, as corridas começam a ganhar popularidade, até ao trágico acidente na prova Paris-Madrid em 1903, devido falhas graves na segurança, por parte da organização.
Nesta época, quase todas as corridas de motos eram, na verdade corridas de resistência. Como afirmava Charles Rolls – que ainda não havia conhecido o Royce – as corridas servem, principalmente, um propósito de desenvolvimento tecnológico e mecânico nestes primeiros anos: a resistência dos veículos era colocada à prova para se ver até onde aguentava. A aplicação do termo “resistência” a este tipo de competição, que mais tarde viria a dar origem a um desporto completamente diferente do “enduro”, está ligado a um evento cujo nome só por si já explica o seu propósito.
Foi o “Six Days Reliability Trial” de 1903, literalmente um extremo teste de resistência de seis dias de duração, organizado no Reino Unido. Esta competição coroava o piloto mais rápido a completar um percurso longo, sem qualquer paragem para assistência. Apenas poderiam ser feitas pequenas reparações e atestar combustível.
A produção de motos intensifica-se nos primeiros anos do século XX e surgem os primeiros modelos de marcas como as inglesas Royal Enfield e Triumph ou as americanas Harley-Davidson e Indian Motorcycle. É aqui que a história começa a mudar.
A competição ganha nova dimensão

Novos modelos começam a surgir, equipados com motores mais potentes, mais velozes e com isto, o panorama da competição motorizada em duas rodas, começa a alterar-se também. A 12 Agosto de 1909, 99 pilotos, em motos fabricadas por 17 marcas diferentes, saem de Cleveland para embarcar naquilo a que os jornais contemporâneos chamam de “a corrida de resistência com maior número de participantes até à data”.
O destino não era aleatório e havia regras a seguir: os 624 km de extensão tinham que ser percorridos em dois dias, com dormida em Columbus, no Ohio, a caminho de Indianapolis. Ali, o circuito, que iria para sempre mudar o imaginário colectivo da competição motorizada, estava prestes a ser inaugurado. No total, 64 pilotos chegaram ao fim, 12 dos quais excederam o tempo máximo permitido. Mesmo em estado muito embrionário, estava lançada a primeira pedra para algo que viria a mudar o panorama motociclístico para sempre.
O ano de 1913 estava ao virar da esquina e essas primeira tentativas, consideradas agora como verdadeiras iniciativas pioneiras, que ainda hoje merecem destaque e ainda hoje continuam a ser referência. Dez anos depois desse histórico ano de 1903, a Federação Internacional organiza o primeiro “Six Days Reliability Trial, que mantém esse nome até 1979, alterando o nome para a designação pelo qual ainda hoje é conhecido: International Six Days of Enduro. O enduro é reconhecido como uma disciplina global, com um futuro muito promissor pois é uma das modalidades mais populares do momento, com cada vez mais adeptos.
Os ISDE
O início dos ISDE remonta ao ano de 1913, altura em que os britânicos lançaram o desafio conhecido como “World Trophy”, destinado a equipas, de três, com recurso a motos fabricadas nos seus próprios países.
Mais tarde, foi apresentado o troféu “Silver Vase”. Este troféu era disputado por equipas de quatro pilotos e, ao contrário do “World Trophy”, os pilotos podiam utilizar motos de qualquer fabricante, de qualquer parte do mundo. O “World Trophy” ficou marcado pelo domínio britânico, com a mesma equipa a vencer por dezasseis vezes o troféu.
Por outro lado, no “Silver Vase” foi a equipa da Checoslováquia que se destacou, com dezassete vitórias, um recorde que perdura até hoje. Durante três décadas consecutivas, os anos 50, 60 e 70, a Europa Ocidental liderou as competições das Olimpíadas de Enduro através da Alemanha Oriental e da Checoslováquia. No entanto, a partir do início dos anos 80, quando o nome do evento passou de “International Six Days of Trials” para “International Six Days of Enduro”, a Itália e a Suécia tornaram-se nas nações mais fortes, repartido vitórias nos onze anos seguintes.
Em 1985, o Troféu Júnior, exclusivo para pilotos até aos 23 anos, foi renomeado para “Silver Vase”. O “World Trophy” assumiu a configuração actual, com equipas de seis pilotos, livres de escolher as suas próprias motos e marcas. A Finlândia alcançou o seu primeiro triunfo na classe Júnior em 1989, com a França e a Espanha também a ganharem protagonismo.
Em 2007 foi introduzido o Troféu para Mulheres, para equipas compostas por três pilotos, dominada pelas francesas desde o início. Hoje, além do “World Trophy”, do “Troféu Júnior” e do “Troféu Feminino”, há também o “Troféu do Clube” para equipas (e não selecções) compostas por três pilotos.
Fontes: endurogp.org e FIM
